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Editorial: "Trump pode incendiar o Oriente Médio"

Em seu discurso, o magnata afirmou que é "tempo de paz e de um brilhante futuro para o oriente médio"

01:30 | 07/12/2017
Sob qualquer ângulo que se olhe, não parece razoável a decisão de Donald Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e de transferir a embaixada americana para a cidade, sagrada para os três principais credos monoteístas: judaísmo, islamismo e cristianismo.

 

A questão é, portanto, um nervo exposto, e foi justamente nele que o presidente dos Estados Unidos resolveu cutucar. A pronta resposta da comunidade internacional é sintomática. Para aliados e rivais, Trump cometeu uma temeridade que, no extremo, pode levar a uma nova onda de violência no Oriente Médio. Mesmo nações aliadas dos EUA criticaram a decisão. Caso de Turquia e Jordânia, que foram incisivas em suas reprimendas.

Comunicada ontem, a iniciativa de mudança da embaixada, aprovada pelo Congresso em 1995 mas sucessivamente adiada por antecessores de Trump, pode dificultar ainda mais as negociações de paz na região, notadamente entre judeus e palestinos, que reivindicam o território.

A seu favor, Trump alega tratar-se de promessa de campanha e que a mudança não interfere na busca por um acordo em torno da fixação de fronteiras e criação de um estado palestino, tampouco estabelece que a cidade passa a pleno controle de Israel.

De efeito prático duvidoso, já que a transferência da embaixada ainda levará tempo, o gesto de Trump tem como único corolário o esgarçamento das relações entre os dois povos e funciona como combustível para o discurso fundamentalista que anima grupos como Hamas e Estado Islâmico. Afinal, deve haver uma razão para que, das 86 embaixadas sediadas na região, todas estejam localizadas em Tel Aviv e nenhuma em Jerusalém.

O próprio Trump já havia postergado uma vez a mudança da embaixada, que precisa ser renovada a cada seis meses. Ocorre que o presidente, achando-se em dificuldades internamente, houve por bem atender agora o pleito de uma parcela significativa de seus eleitores evangélicos cristãos e de grupos judeus de direita, que constituem um terço da base de apoiadores dos republicanos. A intenção é melhorar seus indicadores de popularidade.

Em seu discurso de ontem, o magnata afirmou que é “tempo de paz e de um brilhante futuro para o Oriente Médio”. A depender de suas habilidades diplomáticas, porém, o único horizonte que se descortina para palestinos e judeus é o recrudescimento de conflitos que se arrastam há décadas, sem solução.