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Religião e política no Brasil atual

01:30 | 10/11/2017

Em estudo sobre o processo de racionalização (“desencantamento do mundo”) que moldou a construção da civilização ocidental, Max Weber destaca que um dos fenômenos-chave para o seu entendimento é a secularização iniciada no século XVIII, que levou à perda da centralidade da religião na vida moderna.


Essa tese se popularizou ao longo do século XX, infelizmente de um modo distorcido, fazendo muitos crerem que a secularização seria uma “etapa natural do progresso”, uma mudança irrefreável, que levaria à morte da fé religiosa. Um engano tão tolo quanto perigoso. A crença em um poder superior, sobrenatural, a partir do qual se define uma postura intelectual e uma prática moral é um dos esteios basilares da existência humana, pelo que, ainda que não impossível, é improvável o surgimento de uma sociedade sem religião. A secularização não foi, nem será, um processo linear, mas uma construção histórica que se faz em diferentes ritmos de aceleração, lentidão e retração. Como bem observou Camille Tarot, a religião é e será importante para o saber/fazer da política sempre e enquanto for importante para as pessoas.


A religião, em suas diversas manifestações, nunca deixou de ser uma parte importante da sociedade brasileira. O que experimentamos hoje não é um avanço da religião sobre a cidadania, mas um movimento de retração da secularização, cuja explicação deve ser buscada não na crença das pessoas de fé, mas na ação manipuladora de oportunistas que, como argutamente observou o jornalista Érico Firmo, fabricam falsas polêmicas, criando uma densa e sufocante cortina de fumaça para esconder dos mais humildes aquilo que realmente importa debater. E é assim que discutir a validade ou não da nudez na arte tornou-se mais importante do que debater caminhos para reduzir a desigualdade social.


Tal qual dybbuks, ativistas do conservadorismo e do atraso, como o MBL, exploram a boa-fé de gente simples, convencendo-os a matar sua sede de justiça com um destilado de ódio e intolerância.


Américo Souza

americosouza@unilab.edu.br
Historiador e professor da Unilab

ADRIANO NOGUEIRA

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