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Regina Ribeiro: "Racismo nosso do dia a dia"

01:30 | 03/11/2017

Esta semana, li a entrevista do músico Chico Brown, filho do Carlinhos Brown e neto do Chico Buarque. Lá pelas tantas, depois de falar sobre a herança musical e a responsabilidade que lhe é atribuída mesmo antes do início da carreira, o rapaz abordou o “racismo nosso do dia a dia”. Por um tempo, não entendeu a necessidade de andar com documento de identificação desde muito cedo e achava isso um “exagero” dos pais. Contou que já teve estranhamentos com seguranças em festa. “Nessa hora não tem pai nem avô. Sou eu sozinho”.


Enquanto lia, pensava nas situações vividas por meus filhos e marido, além das que eu mesma já enfrentei. Acredito que esses episódios tão cotidianos — que nos deixam constrangidos de falar publicamente — fortalecem o racismo. Lembro-me do dia que eu tive de dizer ao meu filho por que ele deveria andar com a identidade no bolso. Sempre. Ele quis saber o motivo de toda aquela cobrança. O pai do garoto, eu e o silêncio formamos um trio olhando para o menino. O silêncio era vergonha de dizer o que teria de ser dito. Então, falei de uma vez só: “Marcos, infelizmente moramos num país e numa cidade onde meninos negros como você podem ser confundidos com delinquentes”. Os olhos do meu filho nadaram num mar de incompreensão.


Hoje, tira de letra. Outro dia, chegou em casa contando que se aproximou de uma senhora portando um apoio tentando atravessar a avenida Padre Antônio Tomaz. A mulher ficou tão aperreada que ele teve de dizer: “Calma, só quero ajudar a senhora a passar para o outro lado da rua”. Ela pediu desculpas. Num domingo desses, estávamos juntos e lhe pedi que entrasse num restaurante e fizesse um pedido para viagem. Enquanto esperava, sentou-se numa das mesas do lugar. Um rapaz que estava ao lado com a namorada, de imediato, guardou o celular. Ao perceber, meu filho tirou do bolso o próprio telefone. A namorada falou alguma coisa baixinho e o rapaz pôs de volta o aparelho sobre a mesa. “Maldito racismo! esbravejou quando voltou ao carro. O meu celular é melhor do que o dele”. Os ataques racistas contra personalidades públicas são o clímax dos racismos nossos do dia a dia que os não-brancos neste país aprendem a lidar desde crianças.


Regina Ribeiro

reginah_ribeiro@yahoo.com.br
Jornalista do O POVO e editora das Edições Demócrito Rocha

ADRIANO NOGUEIRA

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