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Regina Ribeiro: "O silêncio e o cheiro dos porcos"

01:30 | 10/11/2017
Quando as denúncias contra o diretor norte-americano Harvey Weinstein começaram a ocupar todas as mídias e notabilizar o tema do assédio sexual, o jornal Le Monde publicou um artigo da jornalista Violaine Morin com o título “Affaire



Harvey Weinstein: Oú sont les hommes? (“Caso H.W: Onde estão os homens” – numa tradução livre). O texto cobrava de atores e demais diretores que haviam trabalhado com o norte-americano uma manifestação de repúdio ao comportamento dele. Aos poucos, alguns assumiram saber que Harvey “gostava de se divertir com jovens atrizes”, mas não tinham conhecimento dos “métodos” utilizados pelo diretor. Outros lamentavam a situação, sugerindo que Harvey é uma “pessoa doente”.


Num outro artigo, “Un homme peut-il être feministe?” (“Um homem pode ser feminista?” – em livre tradução), uma voz masculina se destacou das demais. O diretor Quentin Tarantino – amigo pessoal e parceiro em Harvey em vários filmes – pareceu honesto: “Eu sabia o suficiente para ter de pedir desculpas”. Admitiu que deveria ter agido com “responsabilidade” com o que estava acontecendo e creditou seu silêncio “a uma visão dos anos de 1950, na qual o patrão perseguia a funcionária pelo escritório. Como se isso estivesse certo”. O ator Dustin Hoffman também usou a questão geracional para reconhecer que havia “humilhado muitas mulheres” e se desculpou por isso.


O jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo, escreveu dois artigos sobre o tema. No primeiro, ele pergunta: “Onde estão os predadores sexuais brasileiros?”. Afirma ser estranho que um país machista como o Brasil não tenha sido alcançado pela onda que já derrubou poderosos nos Estados Unidos e na Europa enquanto que, por aqui, reine tão grave silêncio. Semana passada, Rossi incentivou as mulheres a aderirem à campanha francesa #BalanceTonPorc (#Denuncieseuporco).


Esse silêncio todo talvez confirme o tipo de sociedade que construímos na qual os homens são cúmplices e as mulheres costumam ser linchadas em público, inclusive por outras mulheres. É bem provável que o silêncio dos homens brasileiros encontre eco na fala de Tarantino. E o das mulheres pode ser fruto do autêntico medo do “odor”, caso libertem seus os porcos.


Regina Ribeiro

reginah_ribeiro@yahoo.com.br
Jornalista do O POVO

ADRIANO NOGUEIRA

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