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Ítalo Coriolano: "Justiça não proibiu Dirceu de dançar"

01:30 | 20/11/2017

Na última semana, um vídeo provocou alvoroço nas redes sociais: nele, o ex-ministro José Dirceu, condenado nos escândalos do mensalão e do petrolão, aparece dançando com a esposa e outras convidados em uma festa. O tribunal da internet, como era de se esperar, entrou em ação para trucidar o petista, alegando que ele estava tripudiando da população. Como se ele tivesse proibido de se divertir em quaisquer circunstâncias.


Refrescando a memória do leitor. No último dia 2 de maio, a Segunda Turma do STF revogou a prisão preventiva de José Dirceu, que estava atrás das grades desde agosto de 2015 como resultado da Operação Lava Jato. O juiz de 1ª instância Sergio Moro cumpriu a decisão e impôs as seguintes condições: monitoramento por tornozeleira eletrônica; proibição de deixar a cidade de seu domicílio - no caso, Brasília; proibição de se comunicar, por qualquer meio ou por interpostas pessoas, com os coacusados ou testemunhas; comparecimento a todos os atos do processo e atendimento às intimações, por telefone, salvo se dispensado pelo Juízo; proibição de deixar o País; entrega em Juízo de seus passaportes brasileiros e estrangeiros. Ponto.


Em nenhum momento se fez qualquer ressalva sobre participação em eventos festivos. Afinal, as pessoas queriam o quê? Que ele ficasse cabisbaixo e isolado em um canto da casa, dentro de uma moribunda depressão? Por favor. É preciso saber diferenciar o desejo por Justiça da ânsia por um linchamento social. O ex-ministro não ficou nem ficará impune pelos erros que cometeu. Ele apenas recorre em liberdade até que sejam esgotados os recursos no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). São duas condenações na Lava Jato, que juntas somam 32 anos de prisão. Muito provavelmente ele voltará para a cadeia, e não há problema algum em aproveitar essa breve liberdade dentro dos limites estabelecidos, repito, pela Justiça.


O episódio se agrega a muitos outros em que internautas gastam suas energias para destilar ódio contra determinadas figuras públicas. Seja do campo da esquerda, seja da direita, há uma legião de pessoas que parecem ter como hobby ficar na frente de um computador depositando suas angústias e frustrações em cima da vida alheia, por meio de xingamentos e ataques os mais deploráveis. Como se não fosse possível fazer determinadas críticas sem baixar tanto o nível. Reflitamos sobre nossas posturas nas redes sociais. Até que ponto elas ajudam a inflar o insuportável clima de barbárie que toma conta do País?

 

Ítalo Coriolano

italocoriolano@gmail.com

Jornalista do O POVO

 

ADRIANO NOGUEIRA

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