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Rita Marques: O câncer ensina a perdoar

Hoje me sinto livre de rancor, e devo isso ao câncer. Devo a ele a libertação da mágoa, a libertação de remoer certas coisas que não nos levam a nada

01:30 | 21/10/2017

Minha filha estava tranquila e forte, mas tão logo vimos juntas o resultado da biópsia começamos a chorar e parecia que o mundo tinha desabado sobre a minha cabeça. Foram algumas horas de “por que eu,?” indignada porque em meio às tantas dificuldades da vida eu teria de enfrentar mais esta. O medo de morrer, de não superar, era intenso. E se desse tudo errado? Jonas, o filho mais velho, já havia acionado Dr Cid Gusmão, em São Paulo, o oncologista em quem mais confiava, lido a biópsia e recebido as orientações. Mariana já havia falado com Dr Nasser, meu mastologista que tanto respeito, e Milena já havia começado a fazer o que faz de melhor: estar perto, e silenciosamente cuidar, gerir, estar ali. Não sei o que havia acontecido sem a força de minhas amigas. Até banho me deram. Me acolheram como se fosse alguém em processo de renascimento, é aquele processo eu não enfrentaria sozinha.

 

Veio a cirurgia, depois a quimioterapia, algumas internações, complicações, pedras no meio do caminho, sempre orientada por meu querido Dr. Cabeto, acompanhado de Dr. Assis Carvalho. Fui superando com tranquilidade apesar de tudo. Dr Ormando me acompanhava e me encaminhou ao ICC.


No ICC, aos poucos, fui me sentindo em família. A sala de espera foi se tornando como um grupo de terapia e superação. Fabrício, da recepção, era como nosso maestro. Conversávamos, nos apoiávamos, chorávamos. Dr. Fernando Ramos era um anjo e foi também de quem ouvi que tinha chegado ao fim o tratamento. Celebrei, com um café da manhã e junto a todos que me ajudaram, o fim de uma longa etapa. Algumas pessoas já não estão mais aqui.


Recentemente, fui à última consulta antes da alta, depois de cinco anos. E quando me perguntam como foi ter essa doença, costumo responder que o câncer me curou de outras coisas. Fui perdoando aos poucos as magoas que guardava, não sei nem por qual motivo, em um cantinho do peito. Fui perdoando verdadeiramente. Hoje me sinto livre de rancor, e devo isso ao câncer. Devo a ele a libertação da mágoa, a libertação de remoer certas coisas que não nos levam a nada, e pude enfim viver uma vida mais leve.


Esse não foi meu maior sofrimento, mas foi sem dúvida minha maior lição. A vida segue sendo desafiadora. Sigo levando com resignação uma jornada de sete anos com meu companheiro de vida, José William, acometido por uma doença degenerativa. Mas acredito que ter passado pelo câncer foi importante até para isso: para ter fé em meu propósito diário e paciência em viver um dia de cada vez.

 

Rita Marques

shomble41@gmail.com

Paciente do ICC

 

ADRIANO NOGUEIRA

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