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Luís Eduardo Girão: Bebidas nos estádios: um gol contra você

01:30 | 30/10/2017

Além de presidente do Fortaleza, sou "torcedor de arquibancada" desde que me entendo por gente. Nessa jornada de amor ao futebol, infelizmente, já vi muita violência nos estádios: brigas, atos de barbaridade gratuitos e recorrentes, ódio e rivalidade potencializados pelos efeitos do álcool somados à emoção de uma partida. O álcool era, quase sempre, o combustível dos infortúnios. O fato é que a Assembleia Legislativa do Ceará está em vias de aprovar a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios.


Alguns países desenvolvidos também sofrem com a violência na arquibancadas, oriunda da bebida. Por isso, baniram essas bebidas alcoólicas dos estádios. Como é o caso da Inglaterra, Itália e Argentina, por exemplo. Nos campeonatos mais importantes do mundo, como Eurocopa, Liga dos Campeões e Liga da Europa, a venda também é vedada. Por sinal, esses são os torneios mais lucrativos do mundo. E isso não é um paradoxo.

Faz todo o sentido.


O professor Maurício Murad, autor do livro Para entender a violência no futebol, pesquisou e constatou uma redução drástica de violência nos estádios desde que a bebida foi proibida. Em 2008, primeiro ano da proibição, só em Pernambuco houve redução de 63% no índice de violência. Em São Paulo, 57% e em Minas Gerais, 45%. Agora, os estados começam a liberar o consumo visando apenas o lucro pelo lucro, sem perceber o dano às vidas de muitos torcedores e ao espetáculo dos jogadores no gramado. É um retrocesso que pode, inclusive, prejudicar os clubes cearenses com eventuais perdas de mandos de campo por confusões oriundas dos efeitos do álcool. E quem vai se responsabilizar por eventuais tragédias dentro dos estádios?


O Ministério Público é contra, a Polícia Militar também é contra, assim como muitos movimentos de cidadania que estudam cientificamente há tempos o tema. Precisamos (políticos, torcedores, clubes de futebol, entidades sociais) refletir sobre esses pontos que coloquei acima e não querer liberar esse grande mal a "toque de caixa" para o nosso povo.


Como dirigente, não abro mão da paz nos estádios. Por tudo isso, não ficaria com a minha consciência tranquila se não me posicionasse contra esse equivocado projeto de lei, pois sei o quanto o tema nos é caro e digno de atenção para uma sociedade verdadeiramente fraterna. Se mantivermos banida do futebol a venda de bebidas alcoólicas e incrementarmos ações pela paz no entorno das praças esportivas, poderemos ainda sonhar em ter nossas famílias de volta aos jogos. Para torcer e exercitar o bem-estar que o esporte propicia e poder comungar de ideais de um país melhor, menos violento e mais humano.

 

Luís Eduardo Girão

opiniao@opovo.com.br

Presidente do Fortaleza Esporte Clube

ADRIANO NOGUEIRA

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