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Jornal

Francisco Doonon Vieira Franco: "Menos gordofobia, mais acolhimento"

O obeso é, antes de tudo, uma vítima de um padrão definido por uma ditadura da magreza sobre o que é ser normal

07/10/2017 01:30:00
“Você tem o rosto tão bonito, por que não emagrece?”; “Nossa! Eu, que sou mais magra que você, não tenho coragem de usar biquíni” ou “Seu marido é tão magro e você é tão gorda, dá certo?”. Esses são exemplos de frases ditas de forma branda, com o objetivo implícito de atingir, magoar ou desqualificar as pessoas acima do peso. Enquanto injúria racial, assim como outras formas de preconceito se constituem em atos lesivos à personalidade. O preconceito com pessoas gordas não apenas é admitido como é até encorajado por órgãos de saúde pública e campanhas de publicidade.

Assim nos comportamos, assim construímos o mundo à nossa volta, carregado de pré-concepções acerca das pessoas que estão acima do peso: “são gordas porque são preguiçosas”; “não se ajudam”; “não possuem força de vontade”; “são acomodadas”. As pessoas gordas acabam respondendo por visões distorcidas da sociedade acerca da obesidade: falta de formosura, falta de retidão de espírito e negligência para com a própria saúde.


Antes de alimentarmos nosso preconceito, convém lembrar algumas coisas. O excesso de peso não é necessariamente resultado de comer demais. Vários outros fatores podem contribuir, como falta de sono, condições socioeconômicas, medicamentos, desequilíbrio hormonal, genética e problemas de saúde mental. A obesidade nem sempre é algo controlável, fruto de negligência pessoal. O obeso é, antes de tudo, uma vítima de um padrão definido por uma ditadura da magreza sobre o que é ser normal, a partir de seu peso ou conformação corporal, tais modelos de normalidade, fortemente influenciados pela eugenia, ciência que tenta determinar quais seriam os seres humanos com o melhor patrimônio genético, já serviram de base para toda forma de preconceito, escravidão e colonização.


Os efeitos da gordofobia também podem ser sentidos na vida emocional e são capazes de abalar o ser humano do ponto de vista psicológico, uma vez que muitos obesos desenvolvem a crença de que não merecem ser amados, internalizam o modo como são vistos pela sociedade e passam a se enxergar como pessoas incapazes, culpadas, desenvolvendo transtornos psicológicos importantes. Entre eles, a depressão ou síndromes ansiosas que se associam e pioram as condições do sujeito, aumentando sua compulsividade pela comida como válvula de escape para estas situações, gerando um ciclo vicioso.


O obeso necessita, antes de tudo, de apoio e entendimento para que possa enfrentar seu transtorno sem a visão crítica de todos e, de fato, buscar sua ressignificação como pessoa.


Francisco Doonon Vieira Franco

doonon@bol.com.br 

Psicólogo do Instituto AMO; especialista em Psicologia Hospitalar e em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental

 

Adriano Nogueira

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