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Edmar de Oliveira dos Santos: O mimetismo humano

Para espanto de toda a Europa da época, uma sequência de suicídios assolou o velho mundo

01:30 | 31/10/2017
O ser humano é mesmo mimético. Prova disso está na segunda metade do século XVIII, logo após a publicação do romance O sofrimento do jovem Werther, do escritor alemão Johann Goethe. Na obra, o protagonista, depois de uma desilusão amorosa, comete o suicídio por meio de um tiro em sua cabeça. Para espanto de toda a Europa da época, uma sequência de suicídios com a utilização do mesmo método assolou o velho mundo. Veja o poder que uma obra literária tem em afetar o comportamento humano.

 

Outro caso similar aconteceu na década de 1950, na cidade de Belo Horizonte, quando inúmeras jovens cometeram o suicídio por defenestração. O intrigante nesse caso era o fato de que, antes de tudo, o jornal de maior circulação naquela cidade consentia que notas sobre as mortes deliberadas fossem publicadas; até que um psiquiatra procurou o chefe do periódico, o jornalista Assis Chateaubriand, sugerindo a este que não publicasse as notas, uma vez que eram elas que incitavam as pessoas propensas ao suicídio à consumação do ato. Aceita de pronto, os suicídios cessaram.


Se um livro, ou uma nota num jornal determinou atos suicidógenos, o que diríamos dessas cargas psicológicas incessantemente e inadvertidamente lançadas pelas mais variadas formas de comunicação do mundo moderno, com sua espetacular velocidade de propagação, principalmente, do que é ruim, trágico, desumano, dentre outros adjetivos depreciativos para um ser social, simplesmente em busca do maior número de cliques ou de audiência.


As informações nos chegam imperativas e, por maioria das vezes, nos induzindo a condutas e comportamentos, no dizer de Pondé: “Politicamente corretas, porém falsamente propositadas”.


Não por acaso, as brutais e absurdas manifestações de violências frenquentemente protagonizadas por anônimos “surtados” se multiplicam por todo o mundo, indubitavelmente replicadas pela ação inconsciente do direcionamento mimético. O jovem João Pedro, protagonista da tragédia goiana, a exemplo de tantos outros, mais que algoz, também se trata de vítima da imposição de um modelo de sociedade que traz valores carcomidos pela vertente mercadológica, em detrimento dos valores humanos que proporcionam a solidez da paz social. O velho Freud dizia que, ao falar, nos afastamos do ato. João Pedro não teve com quem desabafar. Nossos heróis não podem mais ser os que morreram de overdose. Além do mais, convém entendermos que “paz sem voz não é paz, é medo”.

 

Edmar de Oliveira dos Santos

edmarosantos@yahoo.com.br

Coordenador Especial do Sistema Prisional do Ceará

 

ADRIANO NOGUEIRA

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