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Editorial. Os 500 anos da Reforma Protestante

O fenômeno neopentecostal vem acompanhado de alguns desvios - como o fundamentalismo

01:30 | 31/10/2017
Hoje, completam-se 500 anos da Reforma Protestante, cujo marco inaugural foi a afixação de 95 teses contra a doutrina católica (principalmente a venda de indulgências pelo papado) levantadas pelo frade Martinho Lutero, na porta da Igreja de Wittemberg, Alemanha, em 31/10/1517. Iniciava-se aí a ruptura no cristianismo ocidental, que logo transcenderia o campo religioso e se transformaria num processo de transformações políticas, culturais e econômicas, incontroláveis, que ajudaram a moldar o mundo moderno (o 1º culto protestante no Brasil foi em 1557). Nisso foi ajudado pela invenção, então recente, da imprensa (que permitiu o acesso popular à Bíblia em língua vernácula). E, também, um ambiente cultural onde fermentavam ideias humanistas.

 

A religião serviu de capa ideológica para a manifestação das contradições sociais políticas e econômicas, que já se entrechocavam nas entranhas da sociedade feudal agonizante. A ética protestante da ascese pelo trabalho e a aceitação da usura e da riqueza pessoal (mal vistas pelo catolicismo) deram impulso ao capitalismo.


A interpretação pessoal da Bíblia geraria defecções inevitáveis, dando origem a várias correntes doutrinárias e suas respectivas igrejas: luteranos, calvinistas, anglicanos e suas subdivisões internas. Do Pentecostalismo americano surgiram as igrejas neopentecostais que proliferam, incessantemente, na América Latina e no Brasil. O fenômeno vem acompanhado de alguns desvios - como o fundamentalismo religioso — que leva à intolerância contra outros credos, sobretudo, contra as religiões afros.


O alerta amarelo também acendeu, na sociedade brasileira, quando certas igrejas evangélicas passaram a militar na política partidária (e até incidir em seus vícios), elegendo bancadas de pastores de linha conservadora, com alguns demonstrado propensão para moldar as instituições de acordo com suas crenças, ameaçando diluir as fronteiras entre Estado e Religião. Por isso, é importante que o diálogo entre as várias denominações cristãs, que vêm ocorrendo, em nível mundial, se irradie pelo Brasil, fortalecendo a democracia, a tolerância e o pluralismo. Seria a uma das melhores maneiras de honrar a Reforma Protestante.


ADRIANO NOGUEIRA

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