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Jornal

Duarte Dias: "Cinema, infância e educação"

O cinema nacional veio a se estabelecer como parte da estrutura do estado brasileiro pelo viés da educação

06/10/2017 01:30:00

O cinema mantém diálogo com o público infantil desde o seu início, conforme atesta aquele que é considerado o primeiro filme associado a esse segmento do público, “O regador regado”, curta-metragem produzido pelos irmãos Lumière nos idos de 1895/1897.


De fato, todo o período popularmente conhecido como “Cinema Mudo” – ou, para os especialistas, “Cinema Silencioso” – foi marcado por obras que, pela sua ludicidade, humor pueril e simplicidade narrativa, se encontram ligados ao universo infantojuvenil, algo que viria a se ampliar com o surgimento do cinema sonoro, em especial no gênero animação, muito devido ao modelo de produção criado por Walt Disney, o mais bem-sucedido produtor do gênero.


Essa associação entre o cinema e o público infantojuvenil, no entanto, teve de enfrentar, em seu início, forte rejeição dos setores voltados para a educação de crianças e adolescentes, principalmente em países que dispunham, como o Brasil, de um incipiente circuito exibidor, isso num período anterior ao advento da televisão. Tornou-se célebre, por exemplo, o artigo apresentado pelo paulista Lourenço Filho no V Congresso Americano da Criança, em Havana (1927), onde o emérito educador e defensor da eugenia se referia ao cinema como sendo um “fator de corrupção moral, anarquizador da mente e do caráter infantil”.


Não obstante o embate com destacados representantes do setor educacional, o cinema nacional veio a se estabelecer como parte da estrutura do estado brasileiro justamente pelo viés da educação, quando da criação, durante o governo de Getúlio Vargas, do Instituto Nacional de Cinema Educativo - Ince (1937), tendo no médico Roquette-Pinto o grande dirigente.


Antigo companheiro do Marechal Rondon nas célebres expedições pela Região Norte do País (1912) e fundador da primeira emissora de rádio do Brasil (1923), Roquette-Pinto, com o apoio incondicional do então ministro da Educação, Gustavo Capanema, e o auxílio criativo do cineasta Humberto Mauro, tratou de reforçar, por meio do tripé cinema, infância e educação, o projeto nacionalista do governo de Getúlio Vargas, base para a construção de uma identidade nacional favorável ao desenvolvimento industrial e à constituição de um mercado consumidor interno.


O futuro - pensavam todos - haveria de ter, como nos filmes,
um final feliz.

 

Duarte Dias

cinemasaoluiz@gmail.com

Coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará; programador/
curador do Cinema do Cineteatro São Luiz

 

Adriano Nogueira

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