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Jornal

Bruno Dantas Faria Affonso :"Quem não se avalia, fica à revelia"

Desalentador, mas o cenário atual de crise deveria trazer à tona estruturas corretivas, sistêmicas, e não apenas o lamento irracional

03/10/2017 01:30:00
A recente discussão emergente, que invade até as nossas conversas sentados à beira-mar, não é mais o futebol e, sim, a tal da corrupção (quem diria!), que nos causa reações de menor racionalidade.

 

Como jangadas que se ressentem de uma direção, em nossos íntimos seguimos negando a política e a sua importância nesse mundo tão tecnológico, como se houvesse outra forma de dirigir o interesse público.


Não que a indignação seja ilegítima. Pelo contrário. Porém, ao direcionarmos todas as nossas capacidades às reações menos racionais, deixamos de perceber se não eram possíveis ajustes, nos arranjos, resultando em medidas substancialmente menores de corrupção.


Para isso, precisamos resgatar a ideia da avaliação. Sim, da sistemática produção de informações sobre o que faz o Estado e os seus agentes, o que entregam, de que forma, a que custo, como função guia da realimentação dos processos e de aprendizagem organizacional, com a racionalidade que marcou a história de nossa sociedade.


Uma jangada que navega sem informações, na noite escura, ao sabor do vento, quase à matroca, corre riscos, e se atinge seu destino, o faz de forma fortuita. Assim também é o Estado sem informação qualificada, sujeito aos riscos, aos erros, aos retrabalhos e, sim, à corrupção.


Pode-se dizer que até aos próprios governos, para acertar seus rumos, se interessam pela avaliação, identificando nesta rotas para o sucesso dos seus programas mais queridos, para pescar o lucro político da reeleição ou da indicação de correligionários, como deve ser o jogo político amadurecido, recompensando resultados e conformidade.


Desalentador, mas o cenário atual de crise deveria trazer à tona estruturas corretivas, sistêmicas, e não apenas o lamento irracional. Outros países possuem mecanismos de avaliação de suas políticas de nível de excelência, com órgãos independentes e relatórios periódicos, com trabalhos profundos e qualificados, enquanto do nosso cenário ainda engatinha, com rompantes isolados, como um reflexo de nossa imaturidade política, a maior chaga.


Ficamos assim à revelia, como espumas ao vento, com a cabeça confusa e o coração na mão, por não sabermos avaliar, por faltar-nos uma visão mais sistêmica que nos impeça de sermos engolidos pelos redemoinhos do improviso, o que só nos levará a afogar as nossas mágoas nas águas fundas do mar.

 

Bruno Dantas Faria Affonso

[email protected]

Auditor governamental e mestrando em Administração Pública (UFF)


Marcus Vinicius de Azevedo Braga

[email protected]

Auditor governamental e doutorando em Políticas Públicas, Estratégia e Desenvolvimento (PPED/IE/UFRJ)

 

Adriano Nogueira

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