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Angela Gutiérrez: Ulisses e o fio de Ariadne

01:30 | 21/10/2017
“A Cidade de Ulisses. O nome parecia-nos irrecusável. Havia pelo menos dois mil anos que surgira a lenda de que fora Ulisses a fundar Lisboa”, relembra o narrador de A Cidade de Ulisses.

 

Em tournée literária pelo Brasil, iniciada com visita à Academia Brasileira de Letras, Teolinda Gersão, autora desse admirável romance, publicado no Brasil pela Editora Oficina, veio para seu lançamento, no dia 5 deste mês, em nossa Academia Cearense de Letras. Ouvir, nessa bela festa, a palavra forte, equilibrada e delicada de uma mulher tão consciente da relevância da literatura e das outras artes em um mundo em crise de valores, constituiu-se momento mágico de partilha cidadã.


Entre os instigantes elementos artífices do prazer da leitura no premiado romance de Teolinda, sobressaem: a bem construída trama amorosa; a fala do narrador, Paulo Vaz, que entremostra conhecer mais do que o clássico narrador de primeira pessoa, ao penetrar, pela imaginação, no íntimo da protagonista Cecília Branco; a arqueologia do espaço multifacetado de Lisboa, em sua relação com o tempo lendário e o tempo histórico, o que nos dá a ilusão de acesso, por larga e profunda escavação, as diferentes camadas da cidade; a criação de uma outra Lisboa através da exposição ficcional A Cidade de Ulisses, em que arte visual e literatura se entrelaçam...


Depois de ler o belo livro, nossa imagem da cidade de Lisboa se enriquece, não só porque passamos a conhecer melhor seu passado e seus diferentes espaços do presente, como porque à visão da cidade real, acrescentamos a cidade imaginária, a cidade nas artes, a cidade desejada, que o livro nos instiga a descobrir.


P.S. Nesse momento acabrunhador que nosso País atravessa, a angústia de conviver com a corrupção institucionalizada, já sofrida por portugueses e brevemente narrada por Teolinda em A Cidade de Ulisses, tenderá a doer em nós, leitores brasileiros que hoje suportamos esse indizível mal-estar. Se houve solução para Portugal, com retorno à democracia plena, encontraremos, no Brasil, um fio de Ariadne que nos permita encontrar a saída desse imenso e intrincado labirinto de torpezas?


Angela Gutiérrez

angela_gutierrez@uol.com.br

Escritora, membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará

ADRIANO NOGUEIRA

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