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Jornal

Editorial: "Venezuelanos devem ser acolhidos"

Discurso do senador Romero Jucá (PMDB) atinge diretamente a parte mais fraca do conflito: os refugiados

26/08/2017 01:30:00
Em um momento em que crescem a intolerância e o preconceito contra refugiados em vários países do mundo, foi no mínimo insensível o discurso do senador Romero Jucá (PMDB-RR), um dos principais articuladores do governo de Michel Temer, manifestando-se contra a concessão de abrigo para os venezuelanos que fogem para o Brasil, devido à grave crise política e econômica que varre o país vizinho.

 

Segundo Jucá, “refúgio a gente dá para gente do Haiti, onde teve terremoto, calamidade e a peste campeou. Ou por causa de guerra, como a da Líbia, as pessoas estão se matando lá, estourando bomba na cabeça dos meninos. Isso é um problema para refúgio.

Na Venezuela, é uma questão de ditadura, de briga política, então eu defendo que os pedidos de refúgio sejam estancados”.


Os milhares de venezuelanos que têm entrado no Brasil fogem da crise econômica e/ou da repressão política do governo de Nicolás Maduro. Em ambos os casos, são pessoas que têm direito ao acolhimento, à luz do direito internacional. Em 1951, a Organização das Nações Unidas estabeleceu a Convenção de Refugiados, enquadrando nessa categoria alguém que “temendo ser perseguido por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade”. A Agência da ONU para Refugiados (Acnur) alerta que os padrões da migração tornam-se cada vez mais complexos, “envolvendo não apenas refugiados, mas também milhões de migrantes econômicos”.


Reconheça-se existir limite para a quantidade de pessoas que um país pode atender. Porém essa não é uma situação que se resolve com discurso de palanque, como fez Jucá, atacando o governo da Venezuela para justificar a sua rejeição à entrada de mais refugiados. Diferentemente do que imagina o senador, o seu comportamento não vai incomodar Maduro, que não está preocupado com a sorte de seus compatriotas, porém atinge diretamente a parte mais fraca do conflito, justamente aqueles que precisam de refúgio devido à situação catastrófica da Venezuela.

Adriano Nogueira

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