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Emanuel Freitas da Silva: "O legado da Reforma: algumas implicações sociológicas"

29/07/2017 01:30:00

Em 31 de outubro de 1517, um monge agostiniano rebelou-se contra a instituição mais poderosa do Ocidente, a “santa madre” Igreja Católica, e resolveu publicizar sua revolta, num vilarejo alemão, apregoando o que ficaria conhecido como as “95 Teses” na porta de uma Catedral de Wittemberg, dando início ao que passaria para a História como a “Reforma Protestante”. Seu nome: Martinho Lutero. Obviamente, antes dele muitos outros haviam questionado os rumos dados à mensagem de Cristo pela igreja romana, mas Lutero obteve êxito ao escapar das malhas do poder católico e não ser lançado, como muitos outros, às brasas.


O que há de importante, não apenas no homem Lutero, mas no legado da Reforma? Antes de tudo, o movimento funcionou como um questionamento legítimo e de grandes proporções ao arbítrio da igreja de Roma, abalando sua autoridade sobre este mundo e sobre o mundo futuro (pois, para aqueles que criam, não havia salvação “fora da Igreja”, o que significava que somente por ela é que se conquistaria o mundo dos céus). Lutero assim como os demais reformadores (Calvino, Baxter dentre outros) apregoaram a salvação como dádiva de Deus dada aos homens somente pela fé, sem necessidade de intermediários ou intercessores. Para isso fazia-se necessário “conhecer” sua Vontade, o que só se daria por meio da leitura do Livro Sagrado. Nesse sentido, a tradução da Bíblia para os idiomas nacionais foi um dos primeiros atos da Reforma (lembremos que, até então, somente os que sabiam latim – ou seja, os clérigos –, poderiam ter acesso aos textos sagrados). Ler a Bíblia, em sua língua natal, era para o crente o caminho certo para a “glória divina”, o que acarretou um direcionamento à massificação da alfabetização, e depois da escolarização, dos futuros fiéis protestantes.

A justificação individual pela fé, também expressa por meios individuais, fazia nascer, no mundo ocidental, a figura do “indivíduo”.


Um outro mundo surgiria dali, assentando as bases de uma prática religiosa agora orientada para a condução da vida “neste mundo”, fundando uma verdadeira “ética”, que tanto inquietou a obra sociológica do alemão Max Weber (dedicando-se em grande medida à compreensão das relações entre Protestantismo e Capitalismo). Tal orientação para os interesses “deste mundo” atinge, nos dias de hoje, uma feição extremamente mercadológica em algumas denominações do espectro protestante (em especial naquelas caraterizadas pela “teologia da prosperidade”), que hoje não corresponde mais a um segmento unificado, mas já prenhe de várias ramificações: evangélicos tradicionais, pentecostais e neopentecostais.


Antes de tudo, o movimento funcionou como um questionamento legítimo e de grandes proporções ao arbítrio da igreja de Roma. 

 

Emanuel Freitas da Silva

emanuel.freitas@uece.br

Professor Assistente de Teoria Política do Curso de Ciências Sociais da Faculdade de Educação de Itapipoca da Universidade Estadual do Ceará (Facedi/Uece)

Adriano Nogueira

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