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Jornal

Vanda Claudino Sales: O "Movimento SOS Cocó": resgatando memórias e histórias

07/06/2017 01:30:00
No início dos anos 1980 nasce o “Movimento SOS Cocó”, visando à preservação do Rio Cocó, e tendo como articuladores educadores, geógrafos, biólogos, sociólogos, arquitetos, engenheiros agrônomos, sanitaristas, economistas e físicos, organizados em torno de entidades de classe ou contribuindo individualmente. A dedicação desses ambientalistas à causa era extraordinária!

Quase sem recursos, demarcamos a área ocupada pelo manguezal até cinco metros de altitude – a chamada cota 5; identificamos terrenos públicos próximos ao leito do rio para transferência de população de baixa renda da planície de inundação; realizamos levantamentos técnicos para produzir dados e contrapor os oficiais, com frequência avessos à preservação; fizemos debates e atos públicos com cerca de duas mil pessoas, e inúmeros show-comícios, contando com o apoio dos músicos locais; participamos de conselhos deliberativos oficiais. Tivemos o suporte imprescindível do O POVO na divulgação dos atos públicos, e políticos e partidos de esquerda nos auxiliaram nos enfrentamentos. Foram três décadas de articulação visando a salvaguardar o rio!


A luta não foi fácil, pois a especulação imobiliária, com frequência apoiada pelos governos, controla o espaço urbano local. Ainda assim, o movimento foi acumulando vitórias! Tal é o caso dos decretos estaduais demarcando áreas de utilidade pública e desapropriações sancionados por sucessivas gestões estaduais e a criação de Arie e APAS municipais. Uma grande vitória diz respeito ao fomento de uma cultura de preservação. Com efeito, a paulatina sensibilização da população para com o rio acompanhou as ações do SOS Cocó, em compasso com a ascensão mundial da temática ambiental, até chegarmos a esse sentimento de pertença do fortalezense em relação ao seu maior recurso natural.


Hoje, o Movimento SOS Cocó avança por meio dos esforços de uma nova geração de ambientalistas. Eles, como nós, se emocionam com o rio! No momento, saudamos a criação do Parque Estadual do Cocó, que preserva legalmente a maior parcela dos seus ecossistemas. As dunas, porém, não foram contempladas, e embora sejam Áreas de Preservação Permanente (APPs), estão sujeitas a especulação dos terrenos. Assim, o SOS Cocó se organiza para mais uma etapa de luta, visando à inclusão do que resta do sistema dunar na poligonal do Parque, bem como a defesa das suas comunidades tradicionais.

 

Vanda Claudino Sales

vcs@ufc.br

Geógrafa, professora e integrante do Movimento SOS Cocó

 

Adriano Nogueira

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