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Jornal

Carol de Castro: "O que ganha um missionário"

Só sei que todas as mudanças em minha vida foram decisões difíceis da minha mente, mas meu coração nunca me enganou

24/06/2017 01:30:00
Cresci ouvindo minha mãe contar sobre o dia em que viu o querido São João Paulo II bem de perto. Era 1980. Ele passou pelas ruas de Fortaleza. Ela estava grávida e se emocionou com aquele Karol. Eu estava a caminho deste mundo. Imagino que o santo abençoava a todos, alegrava-se com a acolhida deste povo e pedia ao céu por santas vocações nesta terra.

 

Na agenda desta visita pontifícia ao Brasil, uma missa no Estádio Castelão. Durante o ofertório, Moysés Azevedo assumia o compromisso de ofertar sua vida pela evangelização dos jovens. Nascia a vocação Shalom. Oferta fecunda que foi instrumento para alcançar minha vida 28 anos depois. Até então, eu era uma jovem “normal”.


Morava com meus pais e dois irmãos. Estudei até concluir o Mestrado. Trabalhava. Namorava. Tinha muitos amigos. Gostava de festas, de viagens. Tinha muitos planos, sonhos. Enfim, uma jovem como muitas outras. Até que Deus resolveu mudar o rumo dessa história. Afinal, o então papa tinha pedido por vocações aqui, segundo as lembranças que criei junto com a memória da minha mãe. E Moysés ainda cumpria seu firme propósito de levar os jovens à santidade. Sem entender muito bem essas razões, fui parar num grupo de oração do Shalom, a convite de uma amiga. Primeiro, era mais amizade do que vocação. Depois, e até hoje, não tem explicação.


Só sei que todas as mudanças em minha vida foram decisões difíceis da minha mente, mas meu coração nunca me enganou. Aos 31 anos, larguei tudo e fui em missão para o Rio de Janeiro. Ingressei no vocacional e fui avançando na vida espiritual e formativa dentro da Comunidade. Vieram o postulantado, o discipulado e, hoje, sou uma consagrada a Deus, pelo Carisma Shalom. Neste tempo, vivi além dos meus sonhos e planos.


Se me perguntarem o que ganhei de Deus, se me arrependo do que fiz, se eu pudesse mudar algo... Hoje não tenho emprego. Não casei. Perdi os últimos quatro anos da vida do meu pai. Desisti de conhecer a Europa com as amigas. Desfiz-me de bens, como carro e imóvel. Fiz muitas vigílias cansativas. Acordo cedo para rezar. Sei dos desafios da vida missionária e de tudo que posso vir a abrir mão. Uso um cordão branco, que segura um tau de madeira, como sinal da minha vocação. O que para muitos não combina com o dress code de algumas ocasiões. Tomo decisões conversando com meus formadores.


Sabe o que ganhei? A alegria e a paz de tão somente ter Deus. Posso não parecer tão igual aos outros, não é fácil, mas vale muito a pena. Vale a vida.

 

Carol de Castro

carolcastro80@gmail.com 

Jornalista e missionária

 

Adriano Nogueira

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