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Jornal

Boaventura Joaquim Furtado Bonfim: Belchior - o grande pensador

Belchior levou seu velho cachimbo à boca e, por alguns infindos minutos, quedou-se estático

04/05/2017 01:30:00
“...e no escritório em que eu trabalho/e fico rico/quanto mais eu multiplico/diminui o meu amor...”

 

“...eu era alegre como um rio/um bicho/um bando de pardais/como um galo/quando havia.../ quando havia galos/noites e quintais...”


“...até parece que foi ontem/minha mocidade/com diploma de sofrer/de outra universidade/minha fala nordestina/quero esquecer o francês...”


Belchior é nosso pensador maior, verdadeiro gênio da poesia musical. Cursou até o 4° ano de Medicina na Universidade Federal do Ceará.


Conheci-o, pessoalmente, por volta de 1990, em um show do meu dileto amigo Nonato Luiz, o mágico do violão, na AABB, em Fortaleza. Ao ser apresentado ao genial cantor e compositor, disse-lhe que eu era amigo de juventude do Diderot Catunda Melo, médico em Crateús, e Belchior subitamente complementa: - o mestre Dida! Exatamente, nosso comum amigo Diderot foi seu contemporâneo na Faculdade de Medicina-UFC, a quem ele enviava, antes do lançamento, todos os seus novos discos.


Quando lhe informei que nosso amigo Diderot já se encontrava, há mais de um ano, no plano espiritual, Belchior levou seu velho cachimbo à boca e, por alguns infindos e transudáveis minutos, quedou-se estático. E agora? – pensei. Para trazê-lo à tona, comprometi-me a entregar-lhe depois um santinho da missa de 7° dia do Diderot. Ele aceitou de pronto. Era uma sexta-feira, então me convidou para assistir ao show dele na segunda-feira seguinte, no famoso Pirata Bar. Presença confirmada.


No fim do show, ao entregar-lhe o santinho, Belchior gentilmente agradece e fixa um consternado e duradouro olhar na foto do querido amigo e colega da Medicina, cujos bigodes eram idênticos.


A partir desse dia, comecei a pesquisar mais profundamente suas belas letras e músicas. Constatei, ao longo desses anos, a riqueza de sua linguagem poético-filosófica, com acentuado apelo social, em suas belíssimas letras.


Além disso, a música de Belchior é caracterizada pela riqueza melódica e harmônica, evidenciando de maneira clara a perfeita simbiose entre o popular e o erudito.


Descansa em paz, grande Belchior, na certeza de que tuas belíssimas músicas e tua idiossincrática e bonita voz muito contribuem para tornar as pessoas melhores. Pelo menos, quanto a mim, garanto isso.

 

Boaventura Joaquim Furtado Bonfim

[email protected]

Advogado, aposentado do Poder Judiciário Federal, magistrado estadual resignatário

Adriano Nogueira

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