VERSÃO IMPRESSA

Roberto Macêdo: "Está chovendo. E aí?"

01:30 | 05/04/2017
As chuvas que vêm caindo no Ceará podem dar a falsa impressão de que o problema do abastecimento de água está resolvido. Aqui residem dois perigos: o primeiro é o de que as chuvas não sejam suficientes sequer para a solução das necessidades deste ano; o outro é o retorno à acomodação histórica de não enfrentarmos a questão hídrica com a adoção de medidas que assegurem um convívio adequado e permanente com as consequências das nossas irregularidades pluviométricas.

 

Um olhar novo sobre as carências de água potável não se impõe apenas às regiões mais castigadas pelos fenômenos climáticos, pois sua escassez já se transformou em um problema do planeta. O caderno “Especial Águas”, publicado no O POVO de 31/3, menciona estudos da Organização das Nações Unidas, revelando que um bilhão de pessoas não têm acesso a um abastecimento de água suficiente e, dentre os que têm, quase dois bilhões bebem água oriunda de fontes contaminadas por fezes.


O fato de estarmos sempre pressionados pela nossa condição de habitantes do semiárido, ao mesmo tempo em que nos obriga a encontrar soluções para nossa própria sobrevivência, nos oferece um leque de oportunidades para o desenvolvimento de tecnologias que, quando aplicadas, possam nos servir e atender a essa demanda que está crescendo em todos os continentes. A previsão da ONU é que, em pouco mais de uma década, a necessidade de água potável será 50% maior do que a atual.


Por outro lado, a previsão de que em 2050 cerca de dois terços da população mundial viverão em áreas urbanas (hoje é a metade) agrava o problema, considerando que as cidades, que pouco produzem água, estão despreparadas para o seu uso racional. As chuvas que caem nas cidades não são bem aproveitadas e as águas que chegam pelo sistema de abastecimento não são bem usadas nem reusadas devidamente.


A falta de infraestrutura para uma gestão eficiente das águas é uma das maiores lacunas na administração das grandes metrópoles. Como alertou nesta página de Opinião (29/3) o geógrafo José Borzacchiello, as chuvas, que são uma necessidade e que produzem alegria quando caem, representam também calamidades de diversos tipos para uma parte da população de grandes cidades como Fortaleza, que ainda não se prepararam como deviam para evitá-las e tirarem todo o proveito desta dádiva da natureza.


A criatividade pode dar respostas técnicas na captação e retenção das águas das chuvas que caem sobre as cidades. Estímulos legais para a construção de cisternas nas edificações, por exemplo, deveriam estar na pauta da sociedade e de seus representantes políticos. Iniciativas como a do governo estadual para a instalação da Usina de Dessalinização de água do mar no Pecém precisam ser disseminadas nas cidades litorâneas.


O fato de estar chovendo não deverá ser motivo para relaxarmos nas atitudes de racionalização do uso da água. Precisamos continuar com a mobilização para evitar desperdícios e para descobrirmos novas formas de reutilização desse bem essencial, nas atividades domésticas, nas indústrias ou na agricultura.

 

Roberto Macêdo

roberto@pmacedo.com.br

Empresário

 

ADRIANO NOGUEIRA

TAGS