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Jornal

"Mas isso só não basta". Definitivamente não

10/04/2017 01:30:00

Fátima Sudário

fatima@opovo.com.br

Jornalista do O POVO


Ao que tudo indica, o caso de assédio sexual envolvendo o ator José Mayer e a figurinista Susllem Tonani será um marco no combate à violência contra a mulher por estas bandas. Começou com a coragem da moça de romper o silêncio e denunciar. Afinal a subnotificação contribui para tornar essa realidade clandestina.


Depois a repercussão que, vitaminada pela mobilização das companheiras anônimas e famosas, algumas das quais também já vítimas da mesma violência, recolocou o debate na pauta nacional. Culminou com a reação da Rede Globo, ainda que historicamente tardia. Com uma eficiente estratégia editorial e de marketing, a empresa não só aponta para uma prática saudável como para um novo paradigma de intolerância a esse tipo de indignidade.


E, finalmente, com o pedido de desculpas do ator, que colocou seu comportamento na cota de uma cultura geracional do machismo. Sincero ou não, foi obrigado a vir à praça pública reconhecer que errou. Disse que só o reconhecimento não bastava. De fato, é pouco. E não falo aqui só desse episódio, no qual está tipificado um crime, passível de pena de um a dois anos de detenção, caso a figurinista leve o caso à esfera penal e ele seja condenado.


É preciso muito mais para o enfrentamento a essa violação covarde do assédio. São necessárias mais coragem e condições para denunciar e mais solidariedade com as vítimas, mais posturas como a que a Rede Globo e, principalmente, fazer o debate entrar nas rotinas corporativas, nas esferas pública e privada. Se não for por uma questão de humanidade, de preservar a nossa dignidade, que seja pelo prejuízo econômico que essa “cultura” causa.


É fato. E a falta de dados para medir tal impacto já mostra o descaso. Somos uma potência no mercado de trabalho, mas, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 52% das mulheres economicamente ativas já sofreram assédio sexual. A OIT alerta para as consequências à saúde física e mental, com danos ao desempenho no trabalho, um custo alto também para as corporações. E aponta para adoção de leis e políticas que “penalizem todas as formas de assédio e violência de gênero no local de trabalho”. Também chama atenção para o papel dos sindicatos, das empresas e das pessoas comprometidas. É humano. É civilizado. É digno.

 

Adriano Nogueira

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