VERSÃO IMPRESSA

Lira Neto: "Cada pessoa é um livro"

A Bienal foi imaginada como algo muito maior do que um simples evento literário. Eventos são passageiros, transitórios, efêmeros

01:30 | 08/04/2017
Meses atrás, Fabiano dos Santos Piúba, secretário da Cultura, lançava-me o desafio: assumir a curadoria da Bienal Internacional do Livro do Ceará. Em minhas andanças Brasil adentro e afora, convidado a participar como autor de inúmeros eventos do gênero, reconheço certo esgotamento dessa forma de celebração em torno do livro e da leitura, muitas vezes regida por uma lógica mais mercantil do que cultural.

 

Aceitei, porém, a imensa responsabilidade do encargo ao me ser garantido, por Fabiano, absoluta autonomia para planejar uma Bienal lastreada no conceito da bibliodiversidade. Garantia expressa desde o mote proposto como tema transversal pela Secult: “Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca”. A ideia de valorizar os acervos vivos, as tessituras do saber coletivo, os intercursos entre as múltiplas experiências de vida, tudo isso me apaixonou – e me convenceu – de imediato.


Idealizamos uma Bienal que primará pela qualidade literária acima de tudo, mas na qual o universo dos saberes populares dialogará de igual para igual com o universo letrado – e vice-versa. Uma programação em que não haverá lugar para discriminações de gênero, raça, classe e orientação sexual, em que o fazer literário não será confundido com o mero beletrismo – e o ato de ler e escrever estará entrelaçado, antes de mais nada, à escrita e à leitura do mundo.


Foram meses de reuniões presenciais e virtuais, discussões, convívios, troca de ideias. Com o apoio irrestrito de Fabiano, o suporte da secretária adjunta Suzete Nunes, a supervisão geral de Mileide Flores, a sensibilidade dos também curadores Cleudene Aragão e Kelsen Bravos, creio termos construído uma programação plural, rica de perspectivas, densa de significados.


Além de promover mesas temáticas, que, por certo, possibilitarão fértil diálogo entre o público e escritores consagrados dos mais diferentes estilos e gerações, a Bienal foi imaginada como algo muito maior do que um simples evento literário. Eventos são passageiros, transitórios, efêmeros.


A presença dos mestres da cultura popular, o retorno da “Bienal fora da Bienal” e do Salão do Professor, a Praça do Cordel, a qualidade da programação para a juventude, os encontros paralelos, o critério das atrações infantis, a democratização da ciência, tudo isso faz da nossa Bienal um instrumento de política pública. Um compromisso com a cultura e a cidadania, com o diálogo e a troca de afetos. Por isso, também, um chamamento contra o ódio e a intolerância. Um apelo, enfim, pela urgente construção coletiva de dias menos sombrios.

 

Lira Neto

liraneto@liraneto.com
Jornalista e escritor, é curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará

 

ADRIANO NOGUEIRA

TAGS