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Editorial: "Ataque americano à Síria: cadê a prova?"

O Kremlin alertou que considerou a iniciativa de Trump como um "ato de agressão contra um estado soberano"

01:30 | 08/04/2017
O mundo acompanha com apreensão a escalada de ataques dos Estados Unidos contra a soberania síria, sob o pretexto de retaliação ao suposto uso de gás sarin (um armamento químico proibido) contra civis, pelo presidente Bashar al-Assad, causando mortes brutais, inclusive de crianças. A acusação foi desmentida pelas autoridades sírias e pela Rússia. O Kremlin alertou que considerou a iniciativa de Donald Trump como um “ato de agressão contra um estado soberano”.

 

Num ambiente conturbado, como o da Síria, onde se entrecruzam interesses dos mais variados – desde os de potências regionais hostis a rebeldes antigovernamentais, terroristas do Estado Islâmico (EI) e superpotências em disputa geopolítica –, seria uma temeridade apontar alguém como culpado, sem provas irrefutáveis. Certo, no que diz respeito ao governo sírio, este já teria lançado mão de armamento químico, em conflitos anteriores. Entretanto, Moscou insiste que a Síria não conta mais com armas químicas e que sua destruição, desde 2013, foi monitorada por observadores internacionais.


Esse tipo de acusação gera dúvidas pertinentes, já que foi usada falsamente, pelos EUA contra o governo de Saddam Hussein, para justificar a invasão do Iraque, mesmo depois de observadores da ONU terem feito uma vistoria rigorosa e não terem nenhum arsenal químico (comprovação reiterada após a derrubada de Saddam). Não é duvidoso que se esteja, novamente, diante de uma operação de serviços de inteligência.


Até então, os americanos e aliados não tinham tido condições políticas para atacar diretamente o governo sírio. Assim, tiveram de apostar na guerra civil, contrabandeando armas para os grupos antigovernamentais internos, enquanto anunciavam combate ao EI. Este, contudo, não cessou de avançar sobre o território sírio. Só começou a minguar depois que a Rússia, aliada tradicional da Síria, entrou em cena, encurralando o EI.


Com isso, as potências ocidentais se sentiram marginalizadas. A boa lógica diz que seria um suicídio político e militar para o quase vitorioso governo sírio lançar mão de um recurso tão abominável, oferecendo de bandeja o pretexto para uma intervenção militar estrangeira. Ou não?


ADRIANO NOGUEIRA

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