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Vanilo de Carvalho: "Intolerância, a irmã da Arrogância"

01:30 | 07/02/2017
São irmãs de pai e de mãe. Como dizem os antigos, corre na veia o mesmo sangue. Elas duas, inseparáveis, confidentes, fofoqueiras e maquiavélicas.

 

A mais velha, Arrogância, por tempos desfila pela sociedade, nos bailes dos salões, nos corredores simétricos dos palácios e nos discursos da linguagem soberba. Ela já é carinha carimbada e, por onde chega, não disfarça, chega chegando, sem pudor e recato.


Descobri sua missão: preparar terreno, adubar um solo já fértil, pavimentar um caminho para a entrada triunfal de sua irmãzinha mais nova, que agora se tornou uma mulher forte e perspicaz: a Intolerância, que não chegou para brincadeiras, veio marcar presença dura e assentar lugar em nosso meio.


Seja no assassinato de um ambulante dentro de uma estação de metrô ou pela total falta de constrangimento nas declarações racistas públicas nos estádios de futebol, nas postagens virtuais que menosprezam os pobres e os considerados feios, e na violência não mais velada contra as mulheres e homossexuais, a intolerância gargalha com tantos fiéis.


Berlim, no início dos anos 1920 do século passado, era uma cidade de vanguarda, nos costumes e nas artes, apesar da crise econômica do pós-Primeira Guerra Mundial. Marlene Dietrich era o símbolo dessa época, artista que não se vendeu ao poder governamental e se exilou nos Estados Unidos logo que os nazistas dominaram seu país. Na Alemanha daquela época, como aqui neste começo de século, a Intolerância, chegou de mansinho, já justificada pela sua fraterna Arrogância, deixando os mais lúcidos confusos e sem acreditar no óbvio que já era realidade.


Hoje, no Brasil, radicalização de opiniões político-partidárias afastou amigos e ocupou o espaço dos argumentos, servindo tudo isso a um projeto de poder real que se faz, ao contrário do que muitos pensam, por vias eleitorais, como acontece na cidade do Rio de Janeiro.


Sem querer fazer, ainda, comparações entre personagens, mas fazendo analogias no processo de ascensão do poder, só vejo a História, que não se cansa de se repetir em fatos e consequências.

 

Vanilo de Carvalho

vanilof@uol.com.br

Advogado, mestre e professor universitário

 

ADRIANO NOGUEIRA

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