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José Flávio S Saraiva: Longeva e nova governança argentino-brasileira

01:30 | 08/02/2017
As relações internacionais do Brasil com a grande Argentina foram desenhadas em longevas negociações. Duras e disputas difíceis, tais tratativas marcaram os tempos coloniais aos dias de hoje. Cada lado conhece bem o outro. Há um caudal de experiências acumuladas no Itamaraty e no Palácio de San Martin. Há mesmo um eixo Brasília-Buenos Aires, correspondendo ao eixo Paris-Berlim na Europa ocidental. Lá é o coração da União Europeia. Aqui, é o Mercosul.

 

Há ainda hoje aqui e acolá estranhezas nesse eixo portenho-brasiliense. Mas o caminhar dos diplomatas portenhos a Brasília nesta semana é relevante para o governo brasileiro. A chancelaria nossa está à busca de novas aspirações no entorno estratégico da América do Sul e deseja retornar a seu lugar no mundo.


Um encontro de alto nível entre líderes argentinos e brasileiros sempre é importante. O momento é propício para uma visita de Estado. O visitante sugere projetos para avançar e melhorar a parceria que vem meio descuidada, desde as crises mais recentes do Brasil. O centro é avançar um Mercosul minimalista, mas que funcione no comércio internacional em suas
transformações recentes.


Os diplomatas argentinos e os brasileiros se conhecem bem. A governança vem do longo tempo, do fim das guerras do Rio da Prata às criações de instituições e integração na América do Sul. O arco argentino-brasileiro passou pela formação dos Estados no sul da América do Sul. Um lado conhece bem o outro, os negociadores estudam previamente as aproximações, os recuos e os lances. O mais importante é que, neste momento, cresça confiança no eixo Brasília-Buenos Aires. O lastro desse arranjo vem tanto do arranjo no fim das ditaduras bem como da decisão democrática de Alfonsín e Sarney nos anos 1980.


O presidente Temer saiu na frente. Visitou Buenos Aires já em setembro de 2016, a demonstrar que a Argentina é fundamental para o equilíbrio deste lado do mundo. E para afirmar ao presidente vizinho, Maurício Macri, que já é hora de uma revisão de contratos em favor da volta ao eixo Brasília-Buenos Aires. Afinal, o balanço da presença dos andinos no Mercosul foi fraca e politizada em extremo. O populismo latino-americano enterrou o velho Mercosul. Será preciso recomeçar. Pode ser uma saída interessante para o Brasil, diante das novas vogas do comércio internacional.


Temer e Macri têm condições de andar em projetos menores, até modestos, mas precisam ser ativos para manter a relação mais estratégica da América do Sul. O outro ponto é a nova competitividade mundial no comércio. O PIB do Brasil é quatro vezes que o da Argentina, mas há produtos importantes na pauta exportadora nossas que podem convergir em jogar juntos em outros lugares do mundo. Isso exigirá uma boa coordenação argentino-brasileira.

 

José Flávio Sombra Saraiva

jfsombrasaraiva@gmail.com

PhD, The University of Birmingham, Inglaterra; professor titular de Relações Internacionais da UnB

 

ADRIANO NOGUEIRA

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