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Semana sem Zélia Moraes Rocha

O cristão não aceita quem delibera sobre sua vida, muito menos decisões sobre o fim da dos outro

01:30 | 23/01/2017

O dito popular de que ninguém está de malas prontas no momento em que o criador chamá-lo está correto. O cristão não aceita quem delibera sobre sua vida, muito menos decisões sobre o fim da dos outro, ainda que o nosso caminho tenha a duração de um lírio. Regida pelas leis do universo, Demo afirma que vivemos à beira de um precipício, face ao mundo caoticamente organizado. Como no poema de Apollinaire: “venham(...) disseram: nós temos medo”. Insistiu: “Eles foram. Ele os empurrou e todos voaram”.


Essa beira do precipício, ou a borda do Vesúvio, tem nome: “sr. Acaso” que pode ser também chamado de “seu imponderável”. Ensina Saramago: “decidir é dizer sim ou não”. Franca e corajosa (do tipo “black is black”), foi chamada nossa estimada procuradora de Justiça.


Como diz Nejar, “o que não sabemos, vamos começar a saber, por nos haver descoberto antes”, certamente, ela vai ser recebida pelos anteriores: o pai Moraes Né; por um quase tio, Durval Aires; pelo irmão Wladimir (médico cardiologista que de tanto cuidar do coração dos pacientes, esqueceu o seu). Mais: creio que receberá a mão jovial até do meu sobrinho Leonardo (solidário, a qualquer hora, operador de radiografias, sem os devidos cuidados do chumbo).


A estrada desta mulher carismática foi longa, mas ao mesmo tempo curta. Abraçamos carreiras idênticas. Certa vez ela me proporcionou a alegria de visitar minha comarca. Recordamos o episódio hilário das fraldas. Meu pai, minha mãe e eu, com alguns meses, decidimos visitar Moraes e Palmira. Depois de trocar todas as fraldas (“pelas mesmas razões que se devem substituir políticos”), regressei para casa com a roupinha de batizado da Zélia. Depois, trabalhamos no Tribunal de Justiça, à semelhança do batente jornalístico de nossos pais.


Mais recente, o aniversário de sua mãe foi muito prazeroso. Larguei o TJ do jeito que estava. Ana Cláudia (abraçou a mesma profissão da irmã), com humor, sugeriu: devia voltar e ser melhor produzido. Aí, troquei a gravata pela informalidade, com direito a novas apresentações, pois a família do editorialista do O POVO se multiplicara. Não foi diferente o natalício de minha mãe Alberice. As meninas, filhos e netos da Palmira ouviram a flauta de minha Clarisse, o discurso do Saulinho. Eu, mais o Luís Carlos, o Moraezinho e o Rochinha tivemos a oportunidade de bridarmos àquela passagem.


Renato Russo sugere, em “Por Enquanto” que o sempre não pode durar para sempre. Zélia se ausenta do Rochinha e de dois filhos queridos. E deixa parentes em permanente nostalgia. Muitos amigos provenientes de um coração populoso, além de um modelo de retidão profissional, a exemplo de seu pai. Seu tempo não é mais da cultura, da aplicação justa do Direito, nem do cotidiano e, menos ainda, do relógio. Seu tempo agora é o da eternidade!

 

Durval Aires Filho

durvalairesfilho@gmail.com

Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE) e membro da Academia Cearense de Letras

ADRIANO NOGUEIRA

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