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Pânico

01:30 | 23/01/2017
Ana levantou-se às 4h55min, preparou-se às pressas para ir ao trabalho, sorveu um pouco de café com pão dormido, cobriu a filha com o lençol e beijou o marido, ambos adormecidos, pois ainda era cedo para a escola dela e o ofício dele. Seguiu a pé ao ponto do ônibus a uma quadra de sua casa, no bairro Planalto do Pici, de onde se deslocaria até o terminal para apanhar o outro transporte rumo ao bairro José de Alencar, onde exerceria, com afinco, o trabalho digno que a enche de esperança de um futuro melhor.

 

Eram 5h20min e lá já estavam quatro trabalhadoras, conversando, enquanto aguardavam o coletivo. Aos poucos, a avenida enchia-se de sons e movimento, sobretudo das motocicletas, alegres e barulhentas. Tudo parecia como sempre, quando, de súbito, uma moto para em frente a elas, o garupeiro desce apontando uma arma e o piloto mantém a máquina ligada, também com arma em punho. Anuncia o assalto, exige-lhes que entreguem os celulares, e ainda confere, sob as blusas que manda sejam erguidas, se não há aparelhos modernos escondidos.


Um idoso da vizinhança, que ali caminha todas as manhãs e passava no local naquele instante, também foi abordado, mas nada tinha, exceto a vida. Após os assaltantes saírem tranquilamente, as moças, em pânico, retornaram às suas casas. Uma delas foi providenciar o BO, porque o celular levado pertencia à empresa onde trabalhava.


Cada pessoa reage de modo próprio ao ser assaltada. Ana sentiu a cabeça doer e, já em casa, nauseada, expeliu do estômago a pequena refeição que ingerira. Passou o dia mal, vomitando qualquer alimento que teimasse em engolir. Além de perder o celular, deixou de ganhar um dia de trabalho como diarista. Desiludida, não fez o boletim de ocorrência. A Polícia, acionada por uma delas, só chegou às 6h15min, em vão.


O pânico é o cotidiano de muitas Anas que labutam nesta Fortaleza. Perdem o pouco que possuem, têm sua dignidade agredida, e a esperança, o que ainda as sustenta, aos poucos se esvai. Até quando, só Deus sabe. 

 

Pedro Roberto Sampaio

roberto@sampaio.ws

Aposentado

ADRIANO NOGUEIRA

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