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Municípios e gestão do caos

Apegar-se ao legado de erros de antes nada acrescenta ou resolve

01:30 | 23/01/2017
Pelo País afora as primeiras semanas de gestão municipal foram marcadas por medidas de austeridade, corte de gastos e racionalização da máquina administrativa. Em grande número de casos, a situação encontrada evoca um estado de destruição e abandono. O que fazer diante de tantos desmandos e descompromisso com a coisa pública?

 

Aracati, belo município integrante do patrimônio histórico do Ceará, como tantos outros, é parte desse cenário. Conforme denunciado pelo prefeito Bismarck Maia em matéria veiculada por este jornal (O POVO, 19/1/2017), salários estão bloqueados por dividas com a União, sem contar uma série de outros problemas. Assumindo a Secretaria da Educação, me ocorre a metáfora de um acidente natural do passado, como ilustrativa do trabalho a ser desenvolvido: o grande terremoto de Lisboa, ocorrido em 1º de novembro de 1755, que deixou um rastro de destruição e morte. Registra a história que, em meio ao desespero e aflição geral, sobressaiu-se a voz de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que, ao ser indagado pelo Rei D. José I sobre o que fazer, teria dito: “Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos”. Inúmeras medidas foram, então, tomadas para reconstruir a cidade.


A metáfora do terremoto de Lisboa bem se aplica nesse momento a Aracati e outros municípios brasileiros destruídos pelo descompromisso de gestões anteriores. Escolas, hospitais, postos de saúde e outros equipamentos parecem nos dizer que é necessário “sepultar os mortos”. Isto significa não apenas resolver as emergências como também esquecer o que ficou para trás, deixando o que passou nos seus devidos lugares. Não vale a pena atribuir culpas aos que estiveram à frente da educação ou de qualquer pasta da administração das cidades. Apegar-se ao legado de erros de antes nada acrescenta ou resolve. É preciso dar ao passado o seu lugar na história e a ele recorrer como registro e diagnóstico.


A missão a partir de agora é “cuidar dos vivos”. Zelar pelo que precisa ser zelado; cidadãos, usuários – crianças, jovens, adultos e velhos. Se os cofres estão vazios, é preciso esclarecer a população e, em diálogo, prosseguir. Sem esquecer que é também necessário “fechar os portos”, para que novos problemas não desviem os gestores municipais do foco de seu trabalho: emergências, urgências, prioridades. Com o pé no presente e os olhos no futuro. Este o imenso desafio. Simples e complexo.

 

Sofia Lerche Vieira

sofialerche@gmail.com

Professora e pesquisadora. Secretária da Educação de Aracati

ADRIANO NOGUEIRA

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