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História como ficção

Interessante é que Paulo Setúbal escrevia como ficcionista, mas todos os seus livros se fundamentam em fatos reais

01:30 | 24/01/2017

Era eu aluno do Ginásio Agapito dos Santos, nos anos 50 do século XX, quando o professor de História, o saudoso Luís Edgard Cartaxo de Arruda, me falou de Paulo Setúbal, escritor que romanceava episódios do passado brasileiro. Paulista de Tatuí, onde nasceu em 1893, publicou livros como A Marquesa de Santos, O Príncipe de Nassau e outros, mas gostava mesmo era de reviver a epopeia dos bandeirantes, e assim nasceram A Bandeira de Fernão Dias, O Ouro de Cuiabá, Os Irmãos Leme, Eldorado e O Romance da prata, entre outros.


Fernando Jorge, que publicou uma biografia do escritor, Vida, obra e época de Paulo Setúbal, conta que, após sua morte, Oswald de Andrade, combativo adepto do Modernismo, confessou que “temia escrever bonito demais. Temia fazer a carreira de Paulo Setúbal”. Como disse também que só os reacionários gostavam de Setúbal, escreveu Fernando Jorge: “Coitado do Paulo! Ele nunca foi reacionário e ídolo de reacionários.”


Interessante é que Paulo Setúbal escrevia como ficcionista, mas todos os seus livros se fundamentam em fatos reais, e o autor citava documentos históricos e obras de Pedro Taques, Calógeras, Toledo Piza e Washington Luís.


Mas, para que o possível leitor sinta o estilo do escritor, tomemos Os Irmãos Leme, livro que conta as façanhas dos irmãos João e Lourenço Leme, que viviam cometendo crimes, até que tiveram suas cabeças a prêmio.


Leiamos um trecho da morte de Lourenço Leme:

“Antemanhã. É dentro do mato bruto. Clarões frouxos põem na barra do céu vagos tons de ouro aguado. Nem um pio ainda. Nem um bater de asas. Tudo dorme.”

 

Num rancho desmantelado um homem, “com passos fofos, passos de gato bravo, aproxima-se cautelosamente da ruína. Espia.” Dentro, sobre o chão duro, está deitado dormindo um caboclo de feições escaveiradas.


“O homem, ao dar com o caboclo, estremece. Os olhos faíscam-lhe.

- Quatrocentos mil réis!”

Puxa um trabuco e atira. O caboclo tenta se levantar mas cai.


“O caboclo não diz ai! Nem sequer se mexe. Apenas, pela arca do peito, brotam fios de sangue nos buracos da chumbada: Lourenço Leme acaba de morrer ali.


O batedor de mato ganhara quatrocentos mil réis.”


Isso não era absolutamente só escrever bonito. Era também saber transfigurar em ficção, com arte, fatos que povoam a história do Brasil.


Paulo Setúbal faleceu na Capital de São Paulo, aos 44 anos de idade, no dia 4 de maio de 1937.

 

Sânzio de Azevedo

sanziodeazevedo@gmail.com

Doutor em Letras pela UFRJ; membro da Academia Cearense de Letras

ADRIANO NOGUEIRA

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