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Há 100 anos morreu Farias Brito

Não foi mero repercutidor de ideias de fora. Também não buscava um isolacionismo exótico

01:30 | 23/01/2017

“Não me dirijo aos sábios, orgulhosos de seu saber positivo, mas aos que precisam de um ideal para a vida” – e depois de passar a existência a orientar os desejosos de um ideal, Raymundo de Farias Brito morreu no dia 16 de janeiro de 1917, no Rio.


O primeiro e talvez ainda hoje único filósofo verdadeiramente original do Brasil nasceu em 1862 em São Benedito. Formou-se em Direito, foi promotor em Viçosa e no Aquiraz, professor e funcionário público em Fortaleza, antes de migrar para Belém e depois para a capital do País.


Entre as aulas e trabalho burocrático, Farias Brito lia. Conheceu quase tudo o que se tinha escrito em pensamento filosófico nos 300 anos anteriores. Isso em um tempo sem livrarias online e websites estrangeiros.


De toda essa massa de conhecimento, Farias elaborou um pensamento vasto, com um objetivo. “Se não sei o que sou, nem para que vim ao mundo, não posso saber uma norma de conduta.” E sua Filosofia tinha como objetivo uma norma moral.


Nessa busca publicou obras. Seu primeiro livro na área foi A Filosofia como Atividade Permanente do Espírito, quando morava em Fortaleza, em 1894, seguido de Filosofia Moderna, em 1899. Mudou-se para Belém em 1902, onde viveu sete anos. De suas aulas de Direito naquela cidade nasceu A Verdade como Regra das Ações (1905).


Viveu seus últimos anos no Rio, para onde foi em 1909 disputar a cadeira de Lógica no Colégio Pedro II. No Rio publicou A Base Física do Espírito (1912) e O Mundo Interior (1914).


Farias Brito elogiou e criticou Kant, Taine e William James com a intimidade de quem conhecia a fundo suas obras. Ao mesmo tempo, sabia que estava a viver em país periférico. Dos seus conterrâneos, criticou-os como “fonógrafos que vivem a repetir ideias de que não têm a compreensão, nem o sentido”. Sem “outra preocupação que a verdade”, conclamava para a ação, iluminada pela especulação filosófica: “é na Sociedade mesma que devemos lutar – reagir contra os maus”.


Lembremos e louvemos Raymundo de Farias Brito não meramente porque foi um cearense, mas porque foi um cearense que realizou em condições longe de ideais uma obra que se destina todas as pessoas. Não foi mero repercutidor de ideias de fora. Também não buscava um isolacionismo exótico. Provou que, mesmo naquela Fortaleza de galos a cantar de manhã, havia espaço para se pensar o Mundo. Que seja exemplo para nós, nesta Fortaleza conectada pela internet.

 

Paulo Avelino

pauloavelino@yahoo.com.br

Auditor do Tribunal de Contas da União

As citações no artigo pertencem ao livro “A Base Física do Espírito”, de Farias Brito

ADRIANO NOGUEIRA

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