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Américo Souza: "A bestialização nossa de cada dia"

01:30 | 27/01/2017

Em meu último artigo, ponderei sobre como o ano de 2016 foi marcado por ataques aos direitos sociais, o avanço de ideias conservadoras e a defesa de um Estado da Negação. Ao fim, considerei a proximidade do seu fim como algo positivo. Cometi um erro primário para alguém com a minha sorte de ofício, o de confundir o mapeamento cronológico do tempo com o próprio tempo.


Vivemos o tempo não pela matematização do calendário, mas pelas experiências que ele nos proporciona, e estas não se limitam pela sucessão de datas. Os crimes brutais cometidos em três presídios neste início de 2017 e, ainda mais importante e mais grave, as absurdas manifestações de contentamento com as mortes, feitas à imprensa e disseminadas nas redes sociais, evidenciam que vivemos uma experiência social de embrutecimento emocional e inversão de valores, ou o “fascismo do bem”, como, bem humoradamente, chamou o escritor M.Laub.


Experiência (modo de ver e viver o mundo) esta, cuja origem ainda não compreendemos bem, mas que ameaça ter vida longa e não deixa dúvidas sobre seu potencial destrutivo. Entre outras coisas, está tornando o debate sobre política e sociedade uma discussão rasteira, baseada em falácias lógicas como o ad hominen, o post hoc ergo propter hoc e, o preferido dos internautas, o falso dilema: “você é a favor do aborto, então não gosta crianças”.


Por um lado, vemos instaurar-se um contexto de desprezo pelo debate inteligente, questionador, que exige tempo, ponderação e, sobretudo, mente aberta; tempos de “anti-intelectualismo”, como bem conceituou M.Tiburi. Por outro, estamos perdendo a capacidade de nos identificarmos com o outro, de ter empatia, o que pode levar à morte da solidariedade, que é, nos ensina N. Bobbio, a base mais elementar da democracia.


Fala-se muito em crise econômica, crise política e, agora, em crise penitenciária, mas o que talvez nos falta perceber é que vivemos uma crise de humanidade, um assustador movimento de bestialização que nos consome dia após dia.


Américo Souza

americosouza@unilab.edu.br
Historiador e professor da Unilab

ADRIANO NOGUEIRA

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