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Quando reféns morrem, é fracasso

20/06/2019 16:18:25

Até o fechamento desta Coluna, o governador Camilo Santana (PT) não havia feito um pedido de desculpas pela declaração que deu na sexta-feira, ainda no calor da barbárie ocorrida em Milagres. Disse ser estranho haver reféns de madrugada. Entretanto, como visto ainda no mesmo dia, cinco das seis vítimas trafegavam pela BR-116, vindas do Aeroporto de Juazeiro do Norte. Ao que rigorosamente tudo indica, eram apenas reféns indefesos. Duas crianças dentre elas.

O tom beirou o desdém, o que nem combina com ele. Por não juntar fala e personagem, soou ainda pior. Por que raios (?!) Camilo falou daquele jeito? De perfil pacato, o que aos olhos de quem sofre as agruras da violência e acredita no olho por olho não é elogio, ele pagou pela desinformação e foi precipitado. Nem o seu impetuoso secretário da Segurança cometeu a mesma imprudência.

Pacifista, Camilo criou o programa Ceará Pacífico, um conjunto de ações com a intenção de tornar o Estado o que promete o nome. Não conseguiu até hoje. A despeito de pesados investimentos em tecnologia, na contratação e promoção de policiais, no fim da megalomania automotiva do antecessor Cid Gomes (ainda que a tenha mantido no nível aéreo, com helicópteros de impressionar) e no reforço no policiamento no Interior - ante a ameaça do chamado "novo cangaço" (e ainda tem gente que celebra Lampião...) - os resultados ainda são pífios.

Qualquer opinião sobre quem foi responsável pela morte dos inocentes guarda precipitação até haver um laudo da Perícia. Percebe-se um fenômeno em curso não apenas no Ceará. É nacional. O Brasil tem assistido a seguidos enfrentamentos do crime, no mais das vezes, com alto grau de letalidade. O saldo policial sugere que a Inteligência (aqui entendida como investigação prévia) está atuando. A Polícia se antecipa.

No dia 8 de novembro, dois homens morreram em Lagoa Grande (PE) suspeitos de explodir agência bancária em Pindobaçu (BA). No mesmo dia, em Santana do Ipanema (AL), 11 bandidos foram mortos após ataque ao Bradesco de Águas Belas (PE). Em Bacabal (MA), três bandidos foram mortos no confronto com a polícia e um suspeito foi preso. Não é um fenômeno do Nordeste. Em dois dias, no Rio Grande do Sul, a Brigada Militar matou 10. Conforme descrição dos PMs, estavam armados e se preparavam para assaltar uma agência bancária.

Pergunte ao cidadão comum qual a opinião dele sobre a morte de ladrões. Haverá comemoração. Aliás, chamar os bandidos de suspeitos, visto que não foram condenados pela Justiça, já é motivo de indignação. No episódio de Milagres, ficou clara a reação média das pessoas. O lamento pelos inocentes se dividiu com a celebração da eficiência da Polícia. Naturalmente, antes um bandido a um policial. Nem se discuta. São agentes da lei em um trabalho árduo e de imenso risco. Contudo, e lá vem um jornalista com suas adversativas, uma operação na qual seis reféns morrem, suscita, no mínimo, uma pesada autocrítica. Quando há vítimas inocentes, é preciso repensar.

Faz sentido troca de tiros quando há reféns? Na Academia se aprende que não. O Brasil não é as Filipinas e Camilo não é o presidente Rodrigo Duterte. O chefe de estado filipino já anunciou ter ordenado às suas tropas que bombardeiem os extremistas que fogem com reféns, de modo a travar a onda de sequestros no mar. Apelidou a perda de vidas civis como "dano colateral". "Falam de 'reféns'. Desculpem, (são) danos colaterais", afirmou num discurso para empresários. Nem Bolsonaro, com seu discurso militarizado, foi tão longe. Até em guerras a ONU rejeita ações capazes de por em risco a vida de civis.

mUNIQUE

1972

Oito palestinos do grupo terrorista Setembro Negro, haviam invadido a Vila Olímpica, matado dois membros da equipe de Israel e feito 11 deles de reféns. Queriam libertar árabes presos. A polícia armou uma emboscada para eliminá-los com atiradores de elite. Seis terroristas foram mortos e dois foram presos. "Os 11 reféns estão mortos", resumiu ao final a agência de notícias Reuters. A operação foi um fracasso. Fim.

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