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Presidencialismo atabalhoado da coalizão

15/07/2019 23:07:08
Gabriella Bezerra 
Doutora em Ciência Política
Gabriella Bezerra Doutora em Ciência Política (Foto: Gabriella Bezerra )

A ciência política brasileira na última década, no que diz respeito aos estudos legislativos, passou por uma transformação na compreensão da negociação entre os poderes. Isso se deve as dificuldades encontradas pelos governos PT, onde a chamada lealdade partidária e dominância executiva foram questionadas. Essa transformação não foi ainda tão alardeada, mas é importante para interpretar os possíveis desdobramentos atuais. O chamado presidencialismo de coalizão é, na verdade, melhor descrito como presidencialismo da coalizão. Ou seja, a chamada tibieza do legislativo foi mal compreendida. Isso quer dizer que o presidente não pode descartar as negociações com os parlamentares. E elas são árduas. Eu acredito que devem ser mesmo. O centro do debate político e da representação é o Congresso Nacional. É importante que os parlamentares exijam e façam valer seus mandatos. Entretanto, a nossa tendência por presidentes imperiais seria mal alimentada neste modelo.

Nas urnas, nós tivemos a manutenção da bancada de centro-esquerda e um esfacelamento do que conhecíamos como centro - porque acredito que um novo centro vai surgir, e assistimos ao crescimento da fragmentação dos partidos de direita. A aparente aproximação entre si desta suposta bancada e de seu apoio ao presidente está longe de ser um fato inconteste.

Presidentes que buscaram alterar a constituição tiveram muitas dificuldades, apesar do alardeado sucesso numérico apresentado, se deu, entretanto, com muito toma lá dá cá. Isso quer dizer que o próximo governo não será nada do que planejou, nem entregará nada do que prometeu - no que diz respeito ao seu comportamento perante o Congresso. Tudo bem que suas promessas não foram muitas, já que não apresentou um plano de governo, nem foi a debates. Mas exatamente por isso, seus grupos de eleitores esperam coisas diferentes e muito contraditórias entre si.

Eu diria que, pelo que o candidato eleito já fez e desfez nesse mês, o que se esperava para um ano de trabalho, teremos um governo confuso e atabalhoado e um Congresso mais ativo do que nunca. Agora é esperar para ver e contabilizar no colo de quem vão cair as desastrosas consequências desse (des)arranjo. n

Gabriella Bezerra

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