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Faz escuro, mas eu canto

22/04/2019 07:09:35
Fernando Baía
Historiador
fernandobaia66@gmail.com
Fernando Baía Historiador fernandobaia66@gmail.com (Foto: Fernando Baía)

Jarbas Passarinho passou anos escrevendo o mesmo artigo nas páginas de "O Estado de S. Paulo". Ele iniciava, invariavelmente, afirmando que a esquerda havia triunfado ao impor sua narrativa sobre a História do Brasil pós 1964. Não há novidade na estratégia de repetir a exaustão o fato controverso até que esse seja naturalizado.

O fato concreto, no entanto, é que o regime controlou a passagem do poder e o mais surpreendente é constatar que uma geração de professores de História não foi capaz de construir a memória sobre a derrota do movimento Diretas Já e a eleição indireta de Tancredo Neves, em mais um dos conhecidos pactos de conciliação pelo alto que ao longo de nossa história envolve os partidos políticos e largas fatias do empresariado nacional, com apoio por vezes envergonhado, outras vezes escancarado, da classe média.

Isso está sendo percebido, agora, com o recrudescimento do discurso autoritário e com o revisionismo subscrito pelo atual presidente do STF quando afirma que devemos chamar de "Chapeuzinho Vermelho" o que é "Lobo Mau".

Ao contrário do que prega a "Escola sem Partido", o regime militar teve êxito no apagamento da memória das gerações posteriores. A sanção da Lei 5.692, em agosto de 1971, esvaziou o currículo básico das disciplinas de formação humanística e enfatizou o caráter "técnico" da formação dos jovens, preparando mão de obra para sustentar o "milagre econômico".

O aumento da intolerância, da cassação dos direitos individuais e da perseguição ao diferente só surpreende quem não foi capaz de perceber que a "anistia ampla, geral e irrestrita" nos condenou ao silêncio e à quitação compulsória de dívidas que não prescrevem. Personagens como Carlos Marighela já frequentam as páginas dos livros, mas ainda não chegaram às salas de aula. Vladimir Herzog, Carlos Lamarca e Manoel Fiel Filho são silêncios constrangedores, muito parecidos com a ignorância.

Enquanto não tratarmos da construção da nossa memória, enquanto todas as vozes silenciadas - incluo aqui a voz dos conservadores civilizados, também suprimida pelos arroubos dos "gorilas" - não puderem dar o seu testemunho, continuaremos condenados aos rodapés da História. Pior, condenados a repetir os mesmos erros e injustiças. n

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Fernando Baía

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