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Apocalípticos e integrados

21/04/2019 11:16:01

Deixo assuntos políticos imediatos que ocuparam o necessário tempo ao longo dos últimos meses para abordar outros temas. Uso metaforicamente a oposição no título deste artigo que foi feita por Umberto Eco no debate sobre cultura de massa e cultura clássica porque acredito ainda sintetizar parte da experiência atual em vários domínios.

Embora toda pessoa distinga entre uma boa refeição e uma promessa de uma boa refeição, na comunicação humana parece um pouco mais complicado. A realidade mental é composta de impressões e sensações relativas à fatos passados, presentes e futuros. Há quem acredite que essa separação é uma ilusão da linguagem, fragmentando a experiência temporal única. Ilusão ou não o certo é que a experiência real é encontro de três dimensões temporais. O presente tem predominância como realidade, sendo as demais formas residuais de existências. Angustiamos pelo inexistente, como se inevitável fosse seu acontecer. Vejamos a experiência retratada pelos meios de comunicação. O leitor do jornal diário fica perplexo ao ver o quanto tudo ali noticiados não são fatos ocorridos e sim expectativas. Construímos imagens do mundo com material inexistente na experiência, mas derivados da imaginação. As intenções deveriam ser tratadas como eventos subjetivos, são representadas como fatos incrustrados no mundo atual. Os fatos noticiados tornam-se fatos virtuais. Se não todos, pelo menos uma grande parte. A distinção entre real e virtual (imaginário) vai apagando suas fronteiras. A ausência do contexto performativo reforça a possibilidade de ser atemporal.

No passado, o choro de uma criança numa floresta indicava, sem nenhuma dúvida, a presença de uma criança, hoje já não há mais certeza. Sabemos que essa mesma sensação pode indicar outros eventos. Incapacitamos para distinguir de forma precisa entre eventos imaginários e eventos reais. A descoberta que o cérebro não distingue ação realizada e ação imaginada, aumenta a complexidade. A expressão de intenções no mesmo sentido de fatos reais acaba provocando mais atordoamento. O mundo simbólico desestrutura de modo que a fronteira entre o existir e o desejável ou indesejável é fluida. Antecipamos algo que existe como possibilidade, gerando ansiedade e medo, geradores de angústia e fechamento no tempo presente.

As condições de vida humana foram alteradas na modernidade e mais radicalmente nas últimas décadas com a estruturação de um ambiente técnico-científico. Não se sabe ainda quanto tempo será necessário para estruturar um novo ser humano adaptado a essa forma ambiental. Tudo que vivemos atualmente já não parece mais ser explicado pelos componentes naturais da vida orgânica dos humanos. Já não temos mais um mundo único com experiências semelhantes entre as pessoas. As bases naturais que fundamentavam o compartilhamento subjetivo e simbólico parecem não mais sustentar as experiências atuais. A confusão é generalizada e crescente em todos os setores da vida humana. Quando tanto se fala sobre crise de representação política, seria preciso lembrar que esta crise é apenas uma das manifestações da crise geral da representação mental proporcionada pela criação de um ambiente técnico e virtual. Nossa crise política, tudo indica é mais do que de natureza política, envolve a totalidade da vida humana. Estamos em pleno oceano no meio de uma colossal tempestade com todos os instrumentos de orientação em pane. n

Valmir Lopes

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