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CORAÇÃO VERSUS RAZÃO

27/06/2019 09:22:28
Cleto Brasileiro Pontes 
Psiquiatra
Cleto Brasileiro Pontes Psiquiatra (Foto: O POVO)

Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça, é favorável à redução da maioridade penal no Brasil. Certamente, aderiu no uso da razão e não do coração, preferência brasileira, uma espécie de lusitanismo tropical. São tempos difíceis para os sonhadores, haja vista a média anual de mortes violentas no Brasil ser superior a de conflitos internacionais, índice epidêmico de 26,2 por 100 mil habitantes. Como explicar o contraste entre o Brasil e Austrália? O primeiro, assaz violento e o segundo, 0% de homicídios? A Austrália no seu processo civilizatório, pós aborígenes, acolheu remessas de ladrões e marinheiros vindos da Inglaterra. Na mesma leva, o banqueiro Batman foi para Melbourne, colaborando para o desenvolvimento da ilha. As maiores cidades-prisão eram em Sydney e Melbourne, hoje, altamente civilizadas. Início do século XX, a Marinha britânica se corrompeu na trajetória, mas houve providencial correção de rota e o resultado está aí para quem quiser constatar.

Existe a realidade e o ideal. A primeira, a prática diária norteia; a segunda, utópica, não deve ser banalizada. É sonho sem o qual fica difícil viver. No exercício da psiquiatria vemos casos como de uma professora do ensino fundamental, sentindo-se perseguida pelo prefeito da localidade pelo sua opção de voto no candidato x à presidência. Em pânico, outra professora relata o enfrentamento de alunos adolescentes em discussão sobre "sua facção" na sala de aula. Ela argumentou: "Aqui não, lá fora o problema é de vocês'. É do conhecimento da comunidade a venda de drogas ilícitas por senhora idosa no final da rua x que lá permanece intocável. Outro paciente sacou do bolso um celular feito arma para compartilhar cenas dantescas na favela da Babilônia, de um jovem decepado meio a um mar de sangue por ter se negado a votar em determinado partido.

Quando se é jovem o coração é grande! O juízo, às vezes, pequeno. A nossa realidade carrega forte sentimento contra homens públicos com riqueza alicerçada em falcatruas em prol da desgraça de todos nós. Merecem cadeia feita pela iniciativa privada, paga por eles mesmos. Quanto à razão e o coração, vivem em moinhos de ventos. O filósofo Aristóteles dizia que na calota craniana tinha água e areia, cuja função seria de refrigeração, daí se medir temperatura com as costas da mão na testa de uma pessoa febril. O coração era órgão privilegiado que abrigava conhecimento e afeto. Séculos depois, Blaise Pascal afirmava que o coração tem razões que a própria razão desconhece. De filósofo a filósofo, buscamos sentido, com um pé na utopia e outro na realidade. Na atualidade, o coração e a razão, sobretudo do jovem, funcionam conectados à tela do celular, fato que agrava a violência e alienação social.

Cleto Brasileiro Pontes

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