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Um juiz na política

22/04/2019 10:06:04

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL) confirmou a nomeação do juiz da Lava Jato, Sergio Moro, para o "superministério" da Justiça e Segurança Pública. Além dessas atribuições, a pasta vai absorver as atividades do Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle e parte das atividades do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), hoje subordinado ao Ministério da Fazenda. Segundo Bolsonaro, isso permitirá que Moro tenha informações em tempo real para facilitar o combate à corrupção e ao crime organizado.

As indicações de que Moro não descartava algum tipo de participação na política ficaram subentendidas na resposta que ele deu ao ser questionado porque não desautorizava o então candidato Alvaro Dias (Podemos) que o apresentava como potencial ministro em caso de vitória. Na ocasião, Moro escreveu uma nota dúbia afirmando que a "recusa ou aceitação" eram inviáveis "no momento", pois poderiam ser interpretadas como indicação de preferências políticas partidárias, o que era "vedado para juízes". Ou seja, a nota arrefecia as suas declarações de dois anos atrás, quando negou, enfaticamente, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo (5/11/2016), qualquer possibilidade de entrar na política, afirmando que "jamais" faria isso.

O fato é que a decisão de Moro em aceitar a indicação causou surpresa em uma parcela da sociedade brasileira e também na imprensa internacional, que reagiu negativamente. O editor da revista britânica The Economist, Michael Reid, afirmou que o fato de Moro ter aceitado o convite foi "um grande erro", pois, agora "a prisão de Lula parece um ato político". O Financial Time titulou: "Bolsonaro nomeia juiz que mandou prender Lula".

Durante o período que conduziu os processos da Lava Jato, Moro construiu uma sólida reputação de integridade; de um juiz intransigente contra a corrupção e que aplicou a lei com rigor, mandando para a cadeia empresários endinheirados e políticos poderosos, algo antes nunca visto no País. No entanto - mesmo não se pondo em dúvida a sua honorabilidade -, os questionamentos são legítimos e vão ajudar a sustentar o discurso de seus opositores de que ele vinha tendo uma atuação premeditada no Judiciário para alçar voos políticos.

De qualquer modo, o discurso contra a corrupção que permeou a campanha do presidente eleito vai ganhar uma cara em seu governo - a de Moro -, que tem o respeito de uma ampla parcela da sociedade brasileira, e de quem se espera muito. Nesse aspecto, a nomeação foi um gol de Jair Bolsonaro. Agora, é preciso acompanhar os acontecimentos para verificar se as expectativas despertadas vão se confirmar. n

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