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A quem interessa retrocessos?

24/04/2019 15:20:26

A pior coisa para um governo é enfrentar desgastes sem nem ao menos ter começado. É o que vemos no processo de formação da equipe de Jair Bolsonaro (PSL), eleito presidente da República no último dia 28. A principal polêmica tem origem na perspectiva de fusão do Ministérios da Agricultura com o do Meio Ambiente - este último estando submetido ao primeiro. A possível decisão vai de encontro a tudo que é discutido e praticado no mundo, tendo em vista as fragilidades de muitos ecossistemas e a necessidade de diminuir impactos negativos na natureza, na busca por um desenvolvimento sustentável. Justamente para que as próximas gerações possam garantir sua sobrevivência, para que a própria produção de alimentos não seja comprometida.

Pode-se dizer que a junção das pastas teria, pelo contrário, uma maior interlocução entre as áreas, no sentido de ter o crescimento da produção e a preservação de nossas matas. Cai-se do cavalo quando resgatamos uma das falas de Bolsonaro contrários ao número de áreas florestais protegidas no País. "O Brasil não suporta ter mais de 50% do território demarcado como terras indígenas, como áreas de proteção ambiental, como parques nacionais. Atrapalha o desenvolvimento", disse o então candidato durante um ato em Rondônia, no dia 31 de agosto.

Junte esse pensamento retrógrado ao comportamento predatório de parte do nosso agronegócio e o desastre está completo. A ganância acima de qualquer respeito à biodiversidade é um risco para a nossa própria economia. Em um planeta cada vez mais globalizado e consciente, quais importadores irão querer adquirir nossos produtos sabendo que eles foram cultivados em novas áreas devastadas? Além do mais, o Ministério do Ambiente tem uma atuação ampla, para além de questões ligadas à agricultura e à pecuária. São obras que podem impactar nosso equilíbrio, indústrias poluentes, rios e florestas que precisam de proteção. Uma grande complexidade que requer ter uma pasta voltada para as mais variadas demandas.

Diante da pressão, vinda até de nomes do agronegócio, Bolsonaro começa a recuar da ideia estapafúrdia. Mas com a mesma visão caolha sobre a preservação de nossas áreas verdes. "Serão dois ministérios distintos, mas com uma pessoa voltada para a defesa do meio ambiente sem o caráter xiita, como feito nos últimos governos", diz. Talvez se o novo presidente lembrasse da pequena quantidade de Mata Atlântica que resta no País, do quanto já perdemos de floresta Amazônica, aceitasse escolher um perfil cada vez mais "radical" na defesa do nosso patrimônio ambiental. n

Ítalo Coriolano

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