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E se não houvesse "mimimi"?

21/05/2019 16:23:44
Márcio Pessoa
Sociólogo
Márcio Pessoa Sociólogo (Foto: Arquivo pessoal)

É comum ver setores conservadores se referindo a um tal "mimimi", onomatopeia do som do choro. É uma referência a pessoas e a grupos que, segundo aqueles, "reclamam de tudo". Nosso País atualmente conta com pessoas com muitos direitos e poucos deveres, dizem. Ademais, reclamam que as chamadas "minorias" (mulheres, negros, LGBTQ etc.) encabeçam essa lista.

Para abordar esse tema, é preciso falar necessariamente sobre cidadania, que é a relação entre direitos e deveres. Com a Constituição de 88, passamos a contar com a previsão de direitos como nunca antes: assistência social, educação, saúde universais etc, assim como estabeleceu-se deveres: cumprimento das leis, pagamento de impostos etc.

Ademais, existem princípios constitucionais que preveem o equilíbrio de forças na sociedade, havendo o entendimento de que há um desequilíbrio nas relações sociais e que deve haver intervenção, a fim de reequilibrá-las, evitando a reprodução de uma sociedade doente. Por exemplo: negros/as ganham salários menores, logo, deve-se buscar a igualdade de salários.

Abordarei um caso específico: em março deste ano, um professor da UFRN proibiu uma aluna de assistir aula porque ela tinha que levar sua filha para a sala, o que, segundo ele, atrapalhava a aula. O relato da aluna indica uma mulher, mãe, solteira, que necessita estudar para se profissionalizar e que não tem condições de pagar creche. À época, conversando com um homem conservador, ele classificou isso como "mimimi". Compreendo que esse é um cenário típico do que o setor conservador classifica como "mimimi": mulher que exige direitos.

A pessoa nessa situação vivencia seu contexto de injustiça, mas, geralmente, não consegue direcionar sua crítica. Isso gera um refugo: a reclamação, a denúncia, o pedido de socorro, muitas vezes, sem direcionamento certo... o tal "mimimi".

Esse tipo de denúncia só pode ocorrer em uma sociedade democrática. Desde a década de 1980, as pessoas vêm se acostumando a viver em uma sociedade onde se pode reclamar, mesmo que limitadamente, daquilo que acham estar errado. Imagine agora uma sociedade em que você não pode reclamar. n

Márcio Pessoa

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