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Reencantar a democracia

19/05/2019 09:40:12

Depois de semanas escrevendo neste espaço, decidi que meu artigo de véspera da votação do primeiro turno haveria de trazer uma mensagem de esperança. A tarefa não é fácil. As primeiras eleições pós-impeachment têm abusado da resiliência do eleitor com um tumulto de impugnações, decisões judiciais e ataques. É inevitável a constatação de que o sistema político brasileiro talvez seja mais fraco do que gostaríamos e se deixou tomar por uma crise de confiança que corrói sua capacidade de funcionar perfeitamente.

Estamos amofinados, incrédulos sobre o poder real do nosso voto, sem ânimo para comemorar os trinta anos de uma Constituição que é, por sua qualidade ética e jurídica, o melhor produto da nossa história política. Apesar da melancolia, insisto na escrita para espantar meus fantasmas e exercitar a capacidade de resistir ao medo. Aos professores não é dado o luxo do desalento, como disse há alguns dias um amigo querido. Venho defender, sem perder o compromisso com a crítica, a virtude de permanecer otimista na crise. Mesmo débil, a democracia brasileira vale a ousadia de ser celebrada. O seu voto também.

Congregando valores liberais e virtudes republicanas, nossa Constituição criou um espaço para que pudéssemos ser, por três décadas, uma sociedade fragmentada e desigual, mas ainda assim uma sociedade possuidora de seu próprio destino, que vive os desacertos e as possibilidades de seu instável pluralismo. Votar é a expressão mais concreta disso, a de que, mesmo enraivecido, você acredita nas regras do jogo e reconhece seu poder de escolher um caminho, um projeto de homem, de sociedade e de País. Essa é a vocação do voto: a de afirmar um sentido para o futuro.

Por tudo que almeja, a democracia é o campo da crise permanente. Profundamente diversos, mas igualmente livres, construímos um espaço organizado para discordar, disputar espaços de poder, travar batalhas simbólicas sem recurso à violência. Um espaço que vale o esforço não só de ser protegido, como celebrado. Votar não é algo que se faça com ódio e irracionalidade porque escolher o caminho da barbárie é como sepultar a si mesmo numa casa sem janelas e portas. Meu amigo, afinal, tem razão: o desalento é a prova da desistência, um luxo que não podemos nos permitir se a liberdade ainda importa. A todos, desejo que o domingo seja alegre e que nossos afetos mais caros nos inspirem a decidir por um caminho democrático e de luz. Bom voto! n

Juliana Diniz

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