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Mandela. Um homem que era sinônimo de liberdade

| CENTENÁRIO | Líder sul-africano faria 100 anos hoje

01:30 | 18/07/2018


No começo, Nelson Mandela só dispunha de 500 palavras a cada seis meses. Anotava-as numa carta escrita de próprio punho, algumas em inglês, outras em africâner (registro do sul-africano branco), e as submetia à autoridade da prisão de segurança máxima de Robben Island, onde permaneceria por quase duas décadas dos 27 anos em que esteve encarcerado. Apenas uma fração chegaria à família.

 

No aniversário de 19 anos da filha, por exemplo, o preso político mais importante do apartheid na África do Sul desabafou: “Às vezes eu gostaria que a ciência pudesse inventar milagres e fazer minha filha receber seus cartões de aniversário perdidos e ter o prazer de saber que seu pai a ama”.
Eram os anos 1970, e Mandela já cumpria pena havia mais de uma década, período no qual redigiria mais de uma centena de missivas. O bilhete à filha, por exemplo, seria encontrado 19 anos após Mandela deixar a prisão. Ainda lacrado e com anotações do carcereiro.

No dia que celebra o centenário de Rolihlahla Madiba Mandela (nome de nascimento na etnia Xhosa), prêmio Nobel da Paz em 1993 e primeiro presidente negro da África do Sul, outra correspondência evidencia a têmpera do líder da luta antissegregacionista.

O documento é parte do livro Cartas da prisão de Nelson Mandela. Lançada no Brasil pela editora Todavia, a obra, assinada por Sahm Venter e Zamaswazi Dlamini-Mandela, neta do líder, reúne mais de 200 cartas inéditas.

 

Numa delas, o ex-presidente admite que o estado racista sul-africano tinha o propósito deliberado não só de privá-lo de liberdade, acusando-o de atos terroristas e sabotagem militar, mas de “me apartar e isolar de todo contato exterior, para me frustrar e abater, para me fazer cair no desespero e perder toda esperança”.

 

Preso e condenado à perpétua, o jovem militante passou por quatro penitenciárias e dois hospitais. A primeira sentença, de cinco anos, foi proferida em 7 de novembro de 1962. O então estudante de direito era acusado pelo governo de haver deixado o país sem passaporte e estimulado um levante de trabalhadores.

 

Sanções complementares foram executadas em 1963 e em 1964. Ao todo, Mandela cumpriria penas entre 5 de agosto de 1962 e 11 de fevereiro de 1990, deixando a cadeia apenas aos 72 anos. Nessa época, a África do Sul começara a mudar.

 

Ao longo de quase três décadas de prisão, Mandela se converteu em símbolo da oposição ao apartheid, a ponto de o slogan “Libertem Nelson Mandela” se tornar campanha que extrapolou as fronteiras da África do Sul e chegou a vários países.

 

Durante esse tempo de prisão e lutas contra a segregação de cidadãos negros, rebaixados a categorias subalternas pela minoria branca que governava o país, dois episódios abateram-no profundamente.Também relatados em cartas, ambos ligavam-se à morte de familiares: a mãe de Mandela, Nosekeni, e o filho, Thembi.

 

A autoridade prisional não autorizou que o preso enterrasse seus parentes. Novamente, foi por meio das correspondências que ele viveu o luto de sangue, registrado em cartas endereçadas a amigos.

 

Morto em 2013, Nelson, nome que adotou depois de frequentar uma escola para a elite branca, transformou-se em signo de igualdade de direitos. Para um dos amigos de prisão, Madiba era como “um aríete”. Persistente, tempestivo e contrário aos desmandos, mesmo os cometidos na prisão.

 

LINHA DO TEMPO

 

VIDA E OBRA

Pertencente à etnia Xhosa, Nelson Mandela foi um dos poucos membros da família Mandela que pode frequentar a escola. Sua educação primária se deu em um projeto missionário local, onde recebeu o nome americano “Nelson”.

Seus pais eram membros da classe aristocrática de Thembu, cujo prestígio havia se desgastado após a colonização britânica. Mandela perdeu o pai cedo, em 1927. Continuou os estudos no Instituto Clarkebury, onde aprofundou seus conhecimentos sobre a cultura e o pensamento ocidentais.

Ingressou na Universidade de Fort Hare, onde conheceu um de seus grandes amigos, Oliver Tambo. Nessa instituição, foi eleito representante do conselho dos estudantes e começou a participar do movimento estudantil.

Foi expulso da Universidade após atuar em protestos contra políticas administrativas. Em 1948, entrou em vigor o regime de apartheid, no qual negros e brancos eram meticulosamente discriminados na lei, tendo direitos desiguais e sendo obrigados a ocupar espaços diferentes.

Em 1958, casou-se com Winifred Nomzano. Dois anos depois, após um massacre ocorrido em Sharpeville, no qual a polícia atirou contra centenas de manifestantes negros que questionavam os privilégios dos brancos, o Congresso Nacional Africano foi colocado na ilegalidade pelo governo.

Entre 1964 e 1982, foi mantido na prisão da Ilha Robben e na prisão de Pollsmoor. Nos anos em que esteve na cadeia, o prestígio de Mandela cresceu consideravelmente, e o ativista foi representado como um dos principais líderes negros contrários ao apartheid. O movimento de resistência contra o regime racista da África do Sul não arrefeceu.

Em 1985, o presidente P. W. Botha ofereceu a liberdade a Mandela sob a condição de que ele rejeitasse a luta pela resistência, proposta que foi imediatamente rejeitada. Em 1989, o presidente Frederik de Klerk começou a realizar articulações pela soltura do líder sul-africano, que ocorreu em 1990. Em 1993, dividiu o prêmio Nobel da Paz com o presidente Klerk, como resultado de suas ações contra o apartheid.

Em 1994, os negros sul-africanos adquiriram vários direitos que lhes eram vedados, inclusive o de voto igual ao dos brancos, episódio que é normalmente considerado como o fim formal do apartheid.

Nelson Mandela morreu em 2013.

 

HENRIQUE ARAÚJO

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