VERSÃO IMPRESSA

Após ofensiva, Trump se fortalece

No jogo de perdas e ganhos depois do ataque à Síria, o presidente dos EUA surge como o grande vitorioso

01:30 | 08/04/2017
[FOTO1]

Na batalha por popularidade, o movimento bem-sucedido do presidente americano Donald Trump foi o ataque à Síria, na última quinta, 6. Trump, que enfrentou recente derrota no Congresso e perdia apoios, foi aplaudido até pela oposição democrata. O presidente conseguiu ainda tirar o foco das investigações que apuravam o envolvimento da Rússia nas eleições presidencias na qual saiu vitorioso no ano passado.


“Esse ataque tem um objetivo interno e externo.

Do ponto de vista interno, quer mostrar força e dialoga com setores do governo e Congresso. Trump galga certas posições importantes.

Do ponto de visto externo, quer quebrar a ideia de que ele é o cara da Rússia. Já sinaliza uma posição de força”, avalia o historiador Thomas Toledo.


A motivação do ataque, segundo Trump, foi o uso pela Síria de armas químicas na população civil nesta semana. Pelo menos 80 pessoas morreram e centenas ficaram feridas no último dia 4, na província de Idlib, dominada por diferentes grupos rebeldes. Países europeus e Estados Unidos acusaram o presidente sírio Bashar al-Assad de ter usado gases tóxicos. Assad nega. A Rússia culpa rebeldes pela tragédia.


Vídeos de crianças asfixiando-se foram divulgados na Internet, o que gerou comoção mundial. Entre os comentários de entrevistas de televisão e internautas, mesmo os que não gostam de Trump disseram acreditar que a ação era necessária para “salvar” os sírios.


Em discurso controverso, o presidente americano, que tem criado barreiras para impedir a chegada e permanência de refugiados sírios no país, explica que ordenou o ataque após se sensibilizar com a morte de bebês. Ele disse ainda que a destruição de alvos com armas químicas era questão de segurança nacional.


Democratas mais tradicionais endossaram a atitude do presidente. Os republicanos, maioria nas duas casas legislativas, também elogiaram o presidente.


“Acho que deveríamos estar mais dispostos a confrontar Assad”, disse Hillary Clinton, rival de Trump na última campanha presidencial.


Por outro lado, houve congressistas que criticaram o fato de Trump não ter pedido aval do Congresso para ordenar o ataque - atitude bem diferente da de seu antecessor Barack Obama. Trump preferiu surpreender, após ter dito que não era prioridade derrubar Assad e que faria dele um aliado contra o terrorismo.


Os funcionários de alto escalão da administração viram a decisão como uma demonstração de força. A mensagem? Há um novo comandante no poder.


A chuva de críticas que Trump vinha enfrentando de países progressistas deu espaço a alinhamento, como o do Canadá. Mesmo o fato de Trump ter burlado leis internacionais foi perdoado. O ataque também serviu para distanciar a imagem de Trump da de aliado da Rússia, o que estava prejudicando sua popularidade dentro e fora de casa.


Professor de relações internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser avalia o impacto do ataque. “No meio internacional, como se fosse num jogo de poker, Trump joga a ficha com o Vladmir Putin para dizer que ele tem cacife para bancar ação no Oriente Médio. Nos últimos tempos, só Putin estava dando as cartas”, explica. (Isabel Filgueiras)


ADRIANO NOGUEIRA

TAGS