VERSÃO IMPRESSA

O que podemos esperar do governo Donald Trump?

01:30 | 20/01/2017

Por Sidney Ferreira Leite

PhD e pró-reitor acadêmico do Centro Universitário de São Paulo

A pergunta é clara e objetiva. Todavia, a resposta exige cuidado e reflexão. Será que a primeira coletiva de imprensa que Donald Trump concedeu, pouco antes de assumir o cargo de presidente da República, poderá ajudar a encontrar uma resposta? Será mais correto confiar no programa que o candidato apresentou ao longo da acirrada campanha eleitoral? Vamos tentar encontrar a resposta seguindo essas trilhas.


A entrevista coletiva que Donald Trump concedeu no início da semana foi surpreendente. A expectativa era a retomada do pronunciamento da noite de sua vitória sobre a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, quando falou de união e de um presidente de todos os norte-americanos. Enfim, um Donald Trump sereno, moderado e disposto ao diálogo. Mas o que vimos foi a retomada da metralhadora giratória da campanha, com o seu discurso nacionalista, protecionista e nomeando vilões do momento (muçulmanos, mexicanos e, principalmente, os chineses). O discurso antiglobalização, com ares de isolacionismo, renasceu com força, acompanhado pela encenação de vítima de um complô da mídia. Diante do exposto, o Donald Trump da entrevista coletiva não apresentou indícios seguros para responder à questão que dá título a este artigo.


E quanto ao seu programa de governo? Trata-se de um documento muito superficial que propõe uma agenda de reformas nos campos do comércio, dos impostos e da imigração. Tudo muito genérico, sem lastro em relação aos compromissos e aos tratados internacionais que o seu país assumiu a assinou nas últimas décadas. Além disso, está em desacordo com os depoimentos e declarações públicas dos secretários que ele próprio indicou para formar o seu governo. O título do seu programa de governo, Fazer a América Grande Novamente, é muito pouco esclarecedor dos fatos empíricos que pretende realmente construir e deixa pelo menos duas perguntas no ar: qual América? Que foi grande quando? É um slogan que mistura nacionalismo com uma utopia reversa, de algo idealizado não para frente, mas para um passado idealizado e que existe apenas no imaginário conservador que acredita que o melhor sempre está em um tempo pretérito e indefinido.


Todos, e possivelmente o próprio Donald Trump, não têm clareza sobre o que será o governo do empresário que agora é o presidente do Estado mais poderoso do sistema internacional. Sim, a incerteza está no ar. Porém, é possível fazer algumas conjecturas. Os dois primeiros anos terão foco na agenda interna. Ele foi eleito prometendo aos seus eleitores que o país voltará a crescer e serão gerados muitos empregos. O presidente será cobrado em relação a esses tópicos, desde o primeiro dia do seu mandato. O programa de saúde colocado em prática pelo governo Obama será destruído. Há vontade e maioria no Senado e na Câmara para tal. É bem provável uma desregulamentação da economia, o sinal verde para empréstimos e endividamento da classe média. Medida que poderá gerar, em um primeiro momento, crescimento econômico, mas no longo prazo: contas, dívidas e quebradeiras. Esse filme já passou e sabemos muito bem quem morre no fim.


No âmbito internacional, há perspectivas de um certo isolacionismo. Os Estados Unidos somente participarão das questões que forem do seu interesse. O namoro com a Rússia poderá virar casamento. Enlace matrimonial que será de grande valia para os russos, ansiosos em aumentar o seu protagonismo em regiões estratégicas, como: o Oriente Médio e o Balcãs. Em relação à China, deverá persistir o discurso de que esse país é responsável pelos problemas da economia norte-americana. Tal retórica nacionalista e protecionista agrada aos ouvidos dos seus eleitores. Nesse aspecto, a consequência mais danosa poderá ser o aumento da retração do comércio internacional, fato globalmente ruim. E em relação ao Brasil e a América Latina? Continuaremos sem espaços, na tumultuada e confusa agenda proposta por Donald Trump.


Não podemos avaliar o sabor de um suco sem ingerirmos algumas doses. Em outras palavras, vamos observar as ações e iniciativas do novo governo dos Estados Unidos nos primeiros meses de mandato. Além disso, por que não procurar saber um pouco mais sobre o que pensa o vice-presidente Mike Pence?

 

ADRIANO NOGUEIRA

TAGS