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O bilhete

01:30 | 05/04/2017
Eduardo Horta,

duduchj@hotmail.com


A manhã estava tão quente que Joaquim pensou que aquela tarde seria mais uma daquelas molhadas pelo seu suor incessante, que de gota em gota encharcavam sua camisa. Pensou que, se ao menos pudesse ter um ar-condicionado as coisas seriam mais fácies, mas a absurda ideia logo deixou sua mente, pois era hora de levantar e não tinha mais tempo para sonhos.


Tomou banho, se arrumou, comeu o pedaço da pizza que sobrou da noite passada e se lançou naquela quarta-feira infernal.


O prognóstico era o mesmo, seria uma mistura de trânsito engarrafado com trabalho estressante, temperada com o bafo quente daquela cidade e qualquer hipótese de sair daquela rotina estava a milhares tostões de distância.


Mas pasmem, pois o excepcional ocorreu. E não era um simples evento daqueles que você pode usar como história no final de semana para entreter os amigos no bar.


No horário de almoço, Joaquim foi à lotérica e jogou os mesmos números que jogava nas quartas-feiras, afinal, a vida poderia ser muito melhor e não havia motivos para não se arriscar.


No fim do dia, quando já estava se preparando pra dormir, o impossível tomou forma bem a sua frente e de repente um turbilhão de emoções invadiu o seu corpo como nunca acontecera antes. Os números anunciados eram os mesmos jogados e a bolada era grande.


Com um desespero cuidadoso, o homem que não tinha esperanças de sair daquela vida sem sal abriu sua carteira e retirou o minúsculo pedaço de papel mais valioso do mundo de lá de dentro. Era inacreditável, mas os números eram os mesmos.


A madrugada já começara e Joaquim não sabia direito o que fazer. Qual era mesmo o procedimento para um zé-ninguém que se torna milionário de uma hora para outra no final de uma quarta-feira ensolarada? Certamente, não haveria respostas para esse tipo de pergunta na internet.


Ele sabia que era impossível dormir e haveria muitas coisas para resolver a partir de agora, mas uma certeza não lhe deixou a mente por toda a noite: A primeira coisa que faria quando o sol nascesse seria ir à loja de eletrodomésticos mais próxima e nunca mais sentir calor na vida.



ADRIANO NOGUEIRA

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