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Maria da Penha: "É angustiante saber que em cada casa pode ter uma pessoa com arma"

05:00 | 03/02/2019
Maria da Penha, fundadora do Instituto Maria da Penha e inspiradora da Lei com seu nome
Maria da Penha, fundadora do Instituto Maria da Penha e inspiradora da Lei com seu nome

Enquanto dormia, na noite de 29 de maio de 1983, a farmacêutica química Maria da Penha Maia Fernandes, hoje com 74 anos, foi atingida por um tiro partido de uma arma de fogo que ela nem sabia haver em casa, mantida e acionada pelo ex-marido. O mesmo tiro que a sentenciou a viver em uma cadeira de rodas levou-a, anos depois, a ser o símbolo de combate à violência contra mulheres, inclusive, emprestando nome à Lei Nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. A ativista conversou com O POVO sobre a facilitação da posse de armas através do decreto assinado pelo novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), no último dia 15 de janeiro.

O POVO - Como a senhora avalia essa medida de facilitação da posse de armas, com o decreto assinado pelo novo presidente?

Maria da Penha - É muito angustiante a gente saber disso, que em cada casa pode ter uma pessoa com posse de arma, e as mulheres, que já perdem muito as suas vidas, vão continuar sendo assassinadas. Eu mesma quase fui assassinada, né?

OP - Quais as consequências e os riscos que a senhora acha que essa mudança pode gerar?

Maria da Penha - A mulher se sentir impotente para reivindicar seus direitos, conversar sobre o que é importante para o casal. Se ela conhece o seu marido e sabe que ele é uma pessoa violenta, ela perde essa possibilidade de conversar porque sabe que ele tem uma arma em casa. E não só em relação à mulher, mas na própria questão da violência no trânsito, violência entre vizinhos. Tudo o que presidente colocou que deixaria de acontecer, vai acontecer muitas vezes, porque você não sabe mais quem está armado no outro carro.

OP - No domingo passado, em um vídeo que mostra uma mulher sendo agredida durante ensaio da escola de samba Vai-Vai, em São Paulo, é possível ouvir uma mulher gritar "Maria da Penha" para o agressor. Como é ter seu nome associado a uma repreensão ou um pedido de socorro?

Maria da Penha - Eu me sinto muito realizada em saber que o empenho das pessoas está dando visibilidade a essa lei que leva meu nome. E achei super interessante o posicionamento da escola de samba em expulsar esse agressor da equipe.

OP - A senhora tem um instituto. No que se precisa avançar no combate à violência contra mulheres?

Maria da Penha - Dar sempre visibilidade aos feminicídios que estão acontecendo. Procurar as pesquisas que estão sendo feitas nesse sentido. E também uma coisa muito importante de falar é a falta de compromisso dos gestores públicos. Nós só temos a Lei Maria da Penha funcionando, razoavelmente, nos municípios grandes, nas capitais. Mas nem todas estão tratando com a devida seriedade as políticas públicas que fazem com que a lei saia do papel. E isso precisa acontecer urgentemente porque nós vamos completar 13 anos em agosto da criação da lei, e nós estamos em algumas cidades regredindo.

Isaac de Oliveira