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Violência não pode ser o novo normal

22/05/2019 10:54:18
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Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo nesta semana, o editor da Columbia Journalism Review, Kyle Pope, declarou sobre o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL): "A história mostra que os jornalistas precisam se precaver contra a normalização do comportamento extraordinário".

Pope é cirúrgico ao analisar o caráter heterodoxo da candidatura do capitão da reserva e advertir sobre efeitos que afirmações preconceituosas acabam por produzir.

Um deles pode ser visto agora nas ruas do País: agressões cuja motivação principal é a intolerância política. De acordo com a Agência Pública, foram 50 ataques nos últimos dez dias. A Agência Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) contabiliza cerca de 130 registros de hostilidade contra jornalistas.

É o extraordinário de que fala Pope. Há uma crise lá fora, e não é apenas política. É uma crise de fala que se estende à imprensa. Bolsonaro, não à toa, alimenta-se dela para plantar a suspeição, mesmo método empregado em relação às urnas eletrônicas e a uma suposta ameaça comunista.

A jornalista e escritora Eliane Brum já havia identificado esse fenômeno como o da "autoverdade". Funciona como um modo de convencimento que depende mais de quem fala e como do que aquilo que se fala. Para ela, não se trata só de espalhar mentiras, mas de emular uma retórica de autenticidade sem que o conteúdo das palavras importe.

Como essas agressões têm entrado no radar dos jornais? Boa parte delas, como subproduto natural de uma campanha acirrada. Esse viés, todavia, normaliza o anormal.

Na mesma entrevista, Pope cita como exemplo de cegueira momentânea da imprensa nos EUA a cobertura da prisão de crianças imigrantes pelo governo de Donald Trump. "Isso começou a ser visto como o novo normal, que as crianças imigrantes seriam detidas contra a sua vontade", responde. "Mas então os veículos tiveram de parar e dizer: não, isso não é normal. Isso é inaceitável."

Já está passando da hora de o Brasil chegar à mesma conclusão: a violência que estamos vendo nas ruas não pode ser o novo normal. Isto é inaceitável.

Muito trabalho pela frente

PRINCIPAL DESAFIO Resultado da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e relatório da ONG Oxfam apontando para o aumento do fosso entre ricos e pobres é pesar para a economia. Dinheiro concentrado na mão de poucos reflete no consumo de produtos reduzidos. Um ciclo que chega, não há como fugir, ao comércio, à indústria.

Quer alegria maior para os setores quando os 13º salários são liberados no fim do ano e aquecem o Natal de muitas lojas? É bom para empresário e empregado. Crescem as opções de vagas de trabalho para suprir demandas. Mas nos últimos anos a palavra esperança é a que permanece, disfarçada de recuperação e, muitas vezes, acobertada pelos casos de corrupção que emergem com cifras vultosas. Muitos tentam reverter um cenário que demanda tempo.

A crise atingiu em cheio a base do Brasil e impactou em mais pobres, em maior intensidade na pobreza. Em um ano, 2 milhões de pessoas passaram a viver nesta situação em todas as regiões. O desemprego, hoje, atinge 12,4 milhões de trabalhadores. A pobreza, realidade para 26,5% dos brasileiros, representa 44,7% no Ceará. São mais de 4 milhões de cearenses com menos de R$ 406 por mês. Outros 1,2 milhão estão na extrema pobreza, no Estado, e ganham apenas R$ 140 por mês. É preciso R$ 817 milhões por mês para reverter o quadro no Ceará. Os desafios para os próximos anos se impõem.

Henrique Araújo

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