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Quadrilha tem rainha trans em homenagem a Dandara dos Santos

| SÃO JOÃO | Em um distrito de Russas, a quadrilha rende homenagem a Dandara dos Santos e traz uma mulher trans, Cíntia Freitas, como rainha

01:30 | 05/06/2018

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Na última quinta-feira, 31, a quadrilha junina Girassol do Sertão, organizada por moradores de Flores, distrito de Russas, fez sua primeira apresentação do ano. Na quadra da Escola Maria de Lurdes, a plateia viu a grande roda girar na contramão. O tema é tão espinhoso, quanto necessário. O espetáculo rende homenagem a Dandara dos Santos, travesti espancada e morta em Fortaleza no ano passado. E traz como rainha Cíntia Freitas, uma mulher trans.
 

“O movimento junino, um dos maiores do País e muito forte no Nordeste, não está alheio diante dessas transformações que o Brasil passa. Neste ano, queríamos fazer uma temática atual e que manifestasse apoio às minorias”, explica o presidente da quadrilha, Alex Xavier.
 

Ele conta que, embora em dez anos de formação o grupo costume trazer uma crítica social, o tema de 2018 levantou dúvidas e gerou impasses. “Superamos até nosso próprio preconceito. Culturalmente, a figura da rainha é como se fosse a mulher mais bonita da festa.  

 

Escolher uma mulher trans era arriscado, ainda mais no interior e em um distrito pequeno, que é muito tradicional, mas aceitamos o desafio”, revela.
 

Na escola e na praça central, no dia seguinte, durante a festa do Sagrado Coração de Jesus, o público respondeu positivamente. “A reação foi a melhor possível”, festeja Alex. Até o padre subiu ao palco e aplaudiu. “Foi uma surpresa. Por ser cidade de interior, as pessoas ainda são muito conversadoras”.

A rainha comemora. “É uma honra pra mim representar toda a comunidade LGBT. Ser rainha de quadrilha sempre foi meu sonho. É muito difícil uma travesti ou uma trans dançar em quadrilhas tradicionais. A proposta surgiu e eu não tive como dizer não”.
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Cíntia Freitas, 26, começou a dançar em quadrilhas em 2009, em blusa de botão, calças e chapéu de palha. “Depois de idas e vindas do grupo, em 2014, eu já tinha começado a transição e falei que não dançaria mais de homem e acabei ficando só nos ensaios. Um dia precisaram de uma reserva e só tinha eu. Desde então, danço como mulher”, relembra. 


Representando Dandara, ela se diz “honrada e muito feliz” de fazer parte do circuito deste ano. “Me sinto realizada”.
 

Com 40 pares dançantes, a quadrilha Girassol do Sertão estreia no circuito de competições no próximo domingo, 3, na espera de contar pontos para representar o Ceará em uma competição regional em junho. No próximo dia 14, a quadrilha está com apresentação marcada no São de João de Maracanaú, um dos mais tradicionais no Estado.

 

MATHEUS FACUNDO

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