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Paus, pedras e "bilas": 1968 no Ceará

| 68 NO CEARÁ| Os protestos da juventude em Paris contagiaram países da Europa e da América. No Ceará, como em outras Capitais brasileiras, entidades de classe e estudantes já ocuparam as ruas contra os militares

01:30 | 23/05/2018
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Quando os franceses saíram às ruas em 1968, os brasileiros já protestavam. No Ceará, estudantes e trabalhadores caminhavam do Benfica ao Centro de Fortaleza. A insatisfação ocupava a avenida da Universidade rumo às praças do Ferreira e José de Alencar.


Por aqui, do outro lado do Atlântico, já se discutia que, sozinhas, as manifestações não seriam suficientes contra um governo militar marcado por cercear participação popular em decisões públicas, afastar parlamentares republicanos, perseguir, torturar e matar adversários políticos.


Desde 1964, após o marechal Castelo Branco assumir a Presidência, as lideranças sindicais, principais articuladoras de greves e atos de resistência social, passaram a ser muito visadas em todo o País pelos que estavam no poder. Estudantes tomaram a frente das manifestações, conforme explica o professor e historiador Airton de Farias.


Nas ruas, havia um grito comum, mas havia também uma polifonia. A multiplicidade de demandas era algo característico dos protestos em diferentes países. “1968 foi um grande ‘não’. Não ao capitalismo, crítica à democracia liberal ocidental, ao socialismo burocrático soviético e ao autoritarismo comunista. Foi um grito de liberdade e de questionamento a tudo”, ressalta o historiador.


Apesar da conjuntura de emancipação se propagando mundialmente, o ex-preso político cearense Mário Albuquerque, presidente da Comissão Especial da Anistia Wanda Sidou, pondera que o conservadorismo ainda mantinha voz atuante. “A mudança que a pílula anticoncepcional trouxe para o mundo não provocou o mesmo rompimento de paradigmas aqui. Muitas mulheres ainda precisavam casar virgens, e isso permaneceu. Era um contexto de muitos controles, a começar na família”, afirma.


Segundo ele, em capitais do Sudeste havia maior influência dos movimentos europeus, diferentemente do Ceará. “Estive no conjunto residencial da USP (Universidade de São Paulo) e era muito diferente. Voltei com outra cabeça, depois me envolvi com a luta armada. O maio francês ecoava mais em segmentos intelectualizados, mas não chegava na massa. Nosso ‘maio de 1968’ foi fundamentalmente de luta contra a ditadura”, comenta.


No caso dos alunos cearenses, uma das principais pautas era quanto às vagas excedentes. À época, era comum realizar vestibulares anunciando quantidade de vagas superior ao disponível nas universidades. Os estudantes protestaram onde atualmente é o Centro de Humanidades II, da Universidade Federal do Ceará (UFC), e seguiam até o Centro da Capital.


Bancários, operários do Porto do Mucuripe, funcionários dos Correios, professores, entre outras categorias também tinham bandeiras próprias. O historiador Airton de Farias descreve no livro “História do Ceará”, que em 24 de junho de 1968 houve um dos maiores confrontos entre a população e as forças da segurança no Ceará.


Munidos de paus, pedras e “bilas” (bolinhas de gude), os manifestantes enfrentaram a polícia. Houve tiros, veículos queimados, prédios depredados e pessoas baleadas na Praça do Ferreira. “Havia também o uso de coquetel molotov. Eles usaram pela primeira vez no Ceará, soltavam com bomba rasga lata. A polícia tinha muito medo porque nunca tinham visto aquilo. Aí vem toda a relação com a guerrilha”, aponta o professor.


À época, os estudantes passaram a receber aulas de artes marciais e defesa pessoal. Frequentemente se via nos atos bandeiras de Cuba (onde anos antes ocorrera a Revolução Cubana) e do Vietnã (onde ocorria a guerra). Por outro lado, bandeiras norte-americanas eram queimadas.


“Em 1968, há um questionamento da democracia representativa, o que endossa inclusive a opção pelas armas. E isso ocorreu durante toda a década, não só por 1968, apesar de ser o ano que ficou mais famoso”, aponta Airton de Farias.


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IGOR CAVALCANTE

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