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Juventude e militância

| MAIO DE 68 | Há 50 anos estudantes franceses davam início a protestos que se espalharam pelo mundo. Na pauta, busca pelos direitos civis, igualdade de gênero, liberação sexual e diversidade cultural

01:30 | 22/05/2018

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Período de reviravoltas, maio de 1968 é marco histórico. A agitação social, política e cultural iniciada nos arredores de Paris foi prenúncio (ainda em março daquele ano) do que ecoaria em outros países - por razões divergentes, inclusive. Cinquenta anos depois, a onda de protestos, greves e enfrentamento a autoridades ainda influencia lutas marcantes para os movimentos negro, feminista e trabalhista.
 

O que começou com manifestações estudantis para pedir reformas no setor educacional culminou em greve trabalhista, chacoalhou e desestabilizou o então presidente da França, general Charles de Gaulle. Foi a maior greve geral da Europa, com adesão de mais de 9 milhões de pessoas.
 

No dia 3 de maio de 1968, universitários saíram em passeata sob o comando  do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, que futuramente seria parlamentar francês. A polícia reprimiu os estudantes com violência. A reação do governo estimulou o apoio do Partido Comunista Francês.
 

Pressionado, De Gaulle convocou eleições para junho. Mas a manobra política desmobilizou os estudantes e promessas de aumentos salariais conseguiram fazer os operários voltarem às fábricas. As eleições foram vencidas por aliados de De Gaulle.
 

“Em 1965, uma mulher casada tinha que pedir permissão ao marido para abrir uma conta bancária. Hoje você tem uma aceitação da autonomia da homossexualidade, apesar da Igreja ainda ter seus problemas. Há uma aceitação da diversidade dos indivíduos. Uma ideia de direitos humanos e democracia”, declararia Cohn-Bendit à agência de notícias AFP, décadas depois.
 

A socióloga e historiadora Dulce Pandolfi, em entrevista ao O POVO Online, concorda que os movimentos de Maio de 68 marcaram o século XX. “Foi emblemático. Você ainda tem naquele ano manifestações nos EUA e em países da América Latina, incluindo o Brasil. Mas, no contexto local, era decorrente do golpe de 1964. A ditadura era nosso pano de fundo”, explica.
 

No Brasil, a luta se assemelhava por envolver jovens e abranger questões contrárias ao tradicionalismo moral, além de reivindicações estudantis. A repressão militar também era acentuada, devido ao endurecimento do regime militar e à censura política instaurada.
 

“A grande inquietação da juventude brasileira também englobava questões estudantis, como o corte de vagas, recursos e de autonomia das universidades. De 1945 a 1964, houve crescimento no ingresso ao ensino superior. O golpe (militar) corta isso tudo. Foi um massacre cultural com efeitos enormes na sociedade”, diz Dulce.
 

No período, a busca pelas liberdades era comum aos movimentos, mundialmente: a tentativa de rompimento com conservadoras estruturas políticas e morais. Para o feminismo, foi a época de defesa da pílula anticoncepcional, direito ao divórcio e minissaia. “A luta deixou sementes no mundo, como a participação popular e a cidadania”, acredita a socióloga.
 

Nos Estados Unidos, 1968 seria o ano em que a opinião pública se voltaria contra a Guerra do Vietnã. A Ofensiva do Tet foi o ponto de inflexão. O discurso da Casa Branca de vitória fácil das forças americanas caiu por terra quando os vietcongues realizaram um ataque surpreendente.
 

O movimento hippie fazia questionamentos similares aos dos jovens franceses. Some a este caldeirão, a luta pelos direitos civis, encabeçada por nomes como Malcom X, Panteras Negras e o líder negro Martin Luther King Jr., assassinado naquele ano.
 

Na Tchecoslováquia, tropas soviéticas impediram a implantação do “socialismo humano” proposto por Alexandre Dubcek durante o período que ficou conhecido como Primavera de Praga.
 

No México, centenas de estudantes foram agredidos durante um protesto às vésperas da realização dos Jogos Olímpicos no país.


Saiba Mais
 

Em Paris, slogans irônicos e anti-autoritaristas eram instrumentos de luta. Entre eles:“Imaginação ao poder”, “Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo”, “Ceder um pouco é capitular muito”, “Consuma mais,
viva menos”. 

 

CARTAZES
 

”A beleza está na rua”: um dos milhares de cartazes produzidos artesanalmente por artistas e militantes no Ateliê Popular, improvisado na Escola de Belas Artes

LUCAS BRAGA

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