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Pesquisa revela que cresce o desinteresse pelo futebol no Brasil

| PESQUISA | Considerado o "país do futebol", o Brasil não tem mais o mesmo clamor pelo esporte, segundo o Datafolha

01:30 | 04/05/2018

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Pesquisa feita pelo Datafolha mostra que uma expressiva parte da população brasileira não tem interesse algum pelo que acontece dentro das quatro linhas. Conforme o relatório, 41% das pessoas ouvidas se declararam totalmente desinteressadas. Os dados apontam um crescimento em relação à mesma pesquisa realizada em 2010. Os números do último levantamento apontavam 31% de desinteresse pelo esporte que é símbolo do País.

Quando feito o recorte por sexo, as mulheres são mais indiferentes quando o assunto é futebol, 56% das entrevistadas. Entre os homens, o índice é de 24%. O desinteresse também é maior quanto mais velho o entrevistado. Na faixa etária entre 14 e 24 anos, 35% diz que não tem qualquer interesse pelo futebol. No público que tem 60 anos ou mais, o percentagem sobe para 47.

“Acho que há sim uma contribuição do episódio do 7 a 1, mas a redução pelo interesse pelo futebol vem de um movimento anterior - a mercantilização do futebol, que começou principalmente no final da década de 1970”, avalia o historiador Aírton de Farías. Para ele, as pessoas se afastaram dos estádios e o esporte virou uma atração de televisão.
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Indagados sobre o mundial na Rússia em 2018, os entrevistados mantiveram a opinião, com 42% de desinteresse e apenas 24% afirmaram grande entusiasmo para a Copa do Mundo. O desempenho do técnico Tite à frente da seleção brasileira é aprovado por 62% dos brasileiros, que consideram seu trabalho ótimo ou bom, e reprovado por 3%, que o consideram ruim ou péssimo. O levantamento foi realizado nos dias 29 e 30 de janeiro de 2018. 

 

Foram ouvidas 2.826 pessoas em 174 municípios de todas as regiões do Brasil.
 

Apesar de não ter perdido o interesse por futebol, o dj e mestrando em Sociologia Joaquim Sobreira, 27, confessa certo desestímulo. “Eu tenho muito interesse por futebol não só como torcedor, mas eu estudo isso academicamente. Acho que as pessoas no geral perderam um pouco o interesse depois da copa, ninguém esperava aquela humilhação. Além disso, logo em seguida o treinador contratado não estava fazendo boa campanha”, avalia.
 

Joaquim elogia o trabalho de Tite e acredita que a aproximação da Copa deve reacender a vontade das pessoas de assistir e acompanhar os jogos.
A pesquisa do Datafolha também perguntou sobre times. E, mais uma vez, o futebol saiu em desvantagem. A quantidade de pessoas que não têm um time de preferência é de 22%, enquanto que clube favorito, o Flamengo, foi citado por 18% dos entrevistados.
 

A professora Jéssica Fernandes, 28, explica que apesar de gostar bastante de futebol e participar de jogos, não tem um time de preferência. “Eu assisto aos jogos, gosto de jogar futebol, mas não torço por um time, gosto mais de acompanhar os lances, as boas jogadas”, conta.
 

Ela acrescenta que tem percebido entre os jogadores brasileiros pouca “raça” durante os jogos. “Falta dar mais o sangue na partida. Às vezes eles estão vencendo e se preocupam muito mais em enrolar e só manter o placar, isso também desestimula”, diz.
 

Sobre a Copa do Mundo na Rússia, Aírton de Farías atenta que há um ciclo contraditório. Ao mesmo tempo em que as recentes denúncias de escândalos de corrupção têm afastado os torcedores, o técnico Tite vem desenvolvendo um bom trabalho. “É uma contradição porque esse bom trabalho meio que alimenta a manutenção dessa cúpula da Confederação Brasileira de Futebol”, diz. (Colaboraram Gabriel Serpa e Nathaly Carvalho)

 

Análise

 

Ainda um imenso mercado consumidor
 

Não deixa de ser uma enormidade o número de brasileiros que se dizem desinteressados por futebol, mas é natural se levarmos em consideração que a desorganização fora de campo ainda impera e os melhores atletas não atuam no País. Mais relevante, entretanto, é o percentual de pessoas que têm interesse por futebol. Nesse cenário, são 42% dos homens e 12% das mulheres acima de 16 anos (critério da pesquisa) que se declaram muito interessados no esporte de acordo com a Datafolha, formando um mercado imenso, capaz de gerar bilhões de reais com ingressos, produtos, assinaturas de TV, audiência de todas as plataformas, publicidade e dezenas de outras formas diretas ou indiretas de consumo. Arredondado, temos por aqui 158 milhões de seres humanos acima dos 16 anos. São 80 milhões de mulheres e 78 milhões de homens. Calculando com base no percentual das respostas, são 42 milhões de pessoas muito interessadas em futebol. É muita gente. O fato da pesquisa não levar em conta menores de 16 anos também contamina o resultado. Há uma molecada entre 5 e 15 anos vidrada em futebol e que está invisível na consulta. Seja como for, o resultado deveria impactar nas decisões dos dirigentes que comandam o futebol brasileiro. Eles precisam levar em consideração o pensamento a longo prazo. Melhorar o ambiente do esporte em todos os sentidos é fundamental.

FERNANDO GRAZIANI
Editor-chefe de Esportes
fernandograziani@opovo.com.br

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