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País Perde o Hexa, Mas Não Perde a Piada

01:30 | 09/07/2018

O Brasil fica sem hexa, mas não sem farra. À falta da seleção na Copa do Mundo, eliminada pela ótima geração belga, o país encontrou no mata-mata da política um substituto à altura das paixões futebolísticas. Sai o cai-cai Neymar, entra a peleja pela soltura de Lula. O VAR fica pra trás, chega o árbitro plantonista do Tribunal Regional Federal (TRF4). E, como no futebol, a regra nas disputas do Judiciário nem sempre é clara.


Entre nós, o voto e a bola se confundem desde muito tempo, mas o domingo foi dia especial. No 8 de julho, data de aniversário do 7 a 1, a seleção voltou pra casa e a prisão de Lula reanimou as torcidas pró e contra. Gramados e urnas convergiram para o mesmo dia, exatamente o da maior goleada já sofrida pelo Brasil em torneios oficiais.


E haja simbolismo. Lá pelo fim da manhã, enquanto o time de Tite voava pra casa, o país do futebol foi subitamente arrebatado não por dribles, mas pelos volteios e gingas dos juízes, cujos despachos fariam inveja às reviravoltas de Garrincha. Como um Rivelino da jurisprudência, Rogério Favreto, escalado pelo TRF4 para atuar no fim de semana, aplicou um elástico em Sergio Moro, que, mesmo de férias e sem ritmo de jogo, respondeu prontamente com uma entrada mais dura. A torcida vermelha pediu VAR: afinal, Moro podia ou não podia dividir essa bola com o desembargador?


Instado a arbitrar o impasse entre primeira e segunda instâncias, o relator da Lava Jato no TRF4, Gebran Neto, mandou seguir a partida, mantendo tudo como está: Lula preso, Aécio solto.Numa tarde endiabrada, porém, Favreto partiu novamente com a bola. Em lance individual, bateu um despacho de fora da área – o terceiro do dia, o que lhe daria direito a pedir música no Fantástico.


A jogada, com pinta de improviso, pegou o time da Lava Jato no contrapé. O selecionado do MPF viu falta, mas as arquibancadas petistas aplaudiram.


Enquanto lulistas cantavam o hino agourento “o campeão voltou” antes mesmo da soltura do ex-presidente e os adversários xingavam o juiz “comprado” que já atuara inclusive no time de Lula, dentro de campo a partida continuava indefinida. E assim continuaria por muito tempo, sendo decidida apenas nas prorrogações, que só terminam mesmo no dia das eleições.


Ao final, porém, a impressão que ficou é que toda a confusão não passou de um grande acordo entre a CBF, o Supremo e a Lava Jato para abafar a melancólica chegada dos garotos da seleção e fazer o eleitor-torcedor esquecer o fatídico 8 de julho de 2014.

HENRIQUE ARAÚJO

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